"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

sábado, 24 de dezembro de 2011

CARPE DIEM

Estava bastante animado, saindo para aproveitar o meu primeiro dia de férias. Deixei o carro no posto para ser lavado, já que ele estava uma verdadeira vergonha de tão sujo, e me pus a caminhar para aproveitar o sentimento de liberdade que as férias nos dão. Foi quando me deparei com uma colega de trabalho cujo marido estava doente. Ela estava sentada em uma lanchonete em frente a um hospital. Quando fui cumprimentá-la, ela me abraçou e desatou a chorar. Fiquei sabendo então que a situação do seu esposo era mais grave do que me fora divulgado. Ele estava com câncer. Ela me disse que não podia acreditar no que estava acontecendo. Seu marido era um esportista, corria, malhava, era forte e, de repente, estava ali, desenganado pelos médicos. Fiquei um pouco com ela para tentar confortá-la, consolá-la, se é que isso é possível numa circunstância como essa.
Depois voltei a andar, mas dessa vez toda a euforia das férias havia ficado sem importância alguma. Na verdade refletia sobre a super-importância que damos a coisas que não deveriam merecer tanta preocupação. O ser humano está vivendo mais e um tanto quanto melhor, mas nossas vidas continuam sendo finitas e imprevisíveis. Podemos viver 80 ou até 100 anos, como podemos viver 30, 20 ou até menos. E, mesmo diante da total imprevisibilidade da vida, insistimos em nos ocupar com banalidades sem importância. Perdemos tempo diante de aparelhos de TV para assistir programas que não nos acrescentam em nada como os diversos realitys shows que vemos por aí. O mundo burguês nos ensinou a supervalorizar o dinheiro e bens materiais, em detrimento das relações humanas. Achamos que expressões como “dinheiro não traz felicidade” são hipocrisia, que, na verdade, até um certo ponto, não deixam de ser, mas o dinheiro desacompanhado de pessoas queridas, de realização pessoal, de qualidade de vida, não trará felicidade alguma. Deixamos o consumismo e a vaidade exagerada regerem as nossas vidas. Nos tornamos escravos do mercado, escravos do capital.
Relutamos em nos dedicar a causas sociais, nos esquivamos de assuntos mais complexos, perdemos nossa capacidade de buscar conhecimento, perdemos o que Paulo Freire chama de “curiosidade epistemológica”, para quê? Ao quê nos dedicamos? Estamos cada vez mais nos transformando em pessoas alienada e imbecilizadas e a maioria de nós não faz nada para impedir isso, não faz nada para mudar o quadro. Claro! Estamos preocupados demais em ganhar dinheiro, em ser o “alguém na vida” que tanto ouvimos falar quando mais novos. E, por conta, disso vamos nos futilizando cada vez mais. Nossas vidas vão ficando cada vez mais vazias e desprovidas de sonhos, de objetivos. Não falo do sonho de ter um carro zero ou uma casa de praia, falo de objetivo de vida, de sentido, de significado. Nossas vidas vão escorrendo feito areia numa ampulheta e vamos vendo-as passar enquanto nos ocupamos demais, nos estressamos demais com coisas que, podem até ter a sua importância, porém não deveriam ser tratadas como primordiais. De repente estamos velhos ou mortalmente doentes e nos damos conta que não investimos em nós como deveríamos, não investimos nas nossas famílias, em nossos amigos, em nossas relações sociais. Uma vida vazia de ideais. Claro que a vida corrida que temos hoje tem sim a sua dose cavalar de estresse e vez por outra precisamos de uma diversão escapista, precisamos respirar com futilidades e banalidades, o problema está com aqueles que só se prendem a isso. Esquecem que há um mundo a sua volta. Que coisas importantes acontecem o tempo inteiro em todos os continentes, ainda assim há aqueles que não estão antenados ao que acontece até mesmo no seu bairro. As vidas de certos indivíduos vão ficando cada vez mais pobres. Há pessoas que não vivem, deixam-se governar. Viver,é muito mais do que estar simplesmente vivo. Não raro vemos pessoas que ficam presas a uma cadeira de rodas e desse baque, dessa limitação, tiram força para se dedicar um esporte para cadeirantes, ou a causas sociais que defendam pessoas na sua mesma situação. Será necessário algo tão brusco para que nos demos conta da breviedade da vida? Repito: uma vida sem ideais é uma vida vazia. Pode ser que quando nos dermos conta, a vida passou e ela não teve significado algum.
Qual a mensagem que queremos que nossa vida passe para nossos filhos ou nossos semelhantes? A de alguém que não produziu nada? Não defendeu opinião alguma? Não se posicionou criticamente de forma alguma? A de alguém que era escravo do consumismo e da mídia? Que se deixava governar? Se um mega milionário morresse hoje, mesmo com todo o dinheiro dele, dentro de 50 anos ou mais ninguém se lembraria dele. Agora, a vida, a mensagem de luta do pobre líder seringueiro Chico Mendes nunca será esquecida, portanto, carpe diem para todos, mas com consciência, com posicionamento crítico, o mundo agradecerá.

Nilvio P. Pinheiro

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