Dois bem sucedidos eventos promovidos pelo Instituto de Formação Humana e Educação Popular. O Dia Marginal que divulga a arte fora dos padrões artísticos tradicionalmete estabelecidos e o Cine Ifhep que consiste na exibição de filmes e realização de debates sobre os mesmos.
O Dia Marginal, que aconteceu no dia 14 de abril, contou com a presença ainda de um grupo do Morro Dona Marta para falar sobre o projeto Tá no Mapa.
O Cine Ifhep, que acontece todo o último sábado do mês, ocorreu no dia 28 último e contou com a presença de um bom grupo que contribuiu bastante para o debate sobre a questão da reforma agrária após a exibição do filme "Nas Terras do Bem Virá".
Fotos do Dia Marginal:
Fotos do Cine Ifhep:
"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha
segunda-feira, 30 de abril de 2012
domingo, 29 de abril de 2012
Set List da turnê 2012 dos Los Hermanos
A aguardada turnê dos Los Hermanos que comemora os 15 anos de carreira da banda chegará ao Rio no dia 25 de maio. E para a galera que está na expectativa, aqui vai o set list das músicas que irão compor o show:
Set list turnê 2012
01.
Dois Barcos (Marcelo Camelo)
02. Primeiro Andar (Rodrigo
Amarante)
03. O Vento (Rodrigo
Amarante)
04.
Além do que se vê (Marcelo Camelo)
05.
Morena (Marcelo Camelo)
06. Retrato pra Iaiá
(Rodrigo Amarante / Marcelo Camelo)
07.
O Vencedor (Marcelo Camelo)
08. Condicional (Rodrigo
Amarante)
09.
Tenha Dó (Marcelo Camelo)
10.
Adeus Você (Marcelo Camelo)
11.
Último
Romance (Rodrigo Amarante)
12. Um par (Rodrigo
Amarante)
13.
Lágrimas Sofridas (Marcelo Camelo)
14.
Sentimental (Rodrigo Amarante)
15. Conversa de Botas Batidas
(Marcelo Camelo)
16. Deixa o Verão (Rodrigo
Amarante)
17.
A Outra (Marcelo Camelo)
18.
Casa Pré-Fabricada (Marcelo Camelo)
19. Paquetá (Rodrigo
Amarante)
20.
Cara Estranho (Marcelo Camelo)
21. A Flor
(Marcelo Camelo / Rodrigo Amarante)
22.
Tá Bom (Marcelo Camelo)
23.
Anna Júlia (Marcelo Camelo)
24. Quem Sabe (Rodrigo
Amarante)
25.
Todo carnaval tem seu fim (Marcelo Camelo)
26.
Pierrot (Marcelo Camelo)
sábado, 21 de abril de 2012
Da tragédia à comédia. Na Grécia? Não. Na favela.
Da tragédia à comédia. Na Grécia? Não. Na favela.
À
tarde.
Favela
da Vila de Jesus.
(os nomes mais santos são, geralmente, os dos lugares menos sacros)
Alaor e Ygor
voltavam da escola.
Param na
padaria.
Sanduíche de “mortandela”
e guaraná.
Blazer preta
em alta velocidade para.
Três tiros.
Balas perdidas
que encontram a cabeça do chefe da milícia da favela.
Os dois jovens
sem a menor reação olham
um cara, uma cara,
um rosto
desfigurado
cravejado
de tiro.
De repente,
num estalo,
correm
desembestados.
Param num
beco.
―Caralho!
Puta que pariu! Tu viu Laor?! Quebraram o Toinho Bafo Podre!
―Porra! Tu
viu aquela “brazer”? Veio mandada ae!
―Aquela o
quê?
―Aquela “brazer”
porra! Tu não viu caralho?!
― Hahahaha
”Brazer” é meu pau porra! É blazer seu burro!
Alaor
ameaçou reagir. Parecia demonstrar raiva. Mas, de repente, não agüentou com a
própria situação e se escangalhou de rir. A gargalhada dos dois misturava-se
com o som da sirene da polícia. O contato corriqueiro com a violência faz com
que jovens como Alaor e Ygor transitem, num mesmo momento, com extrema
facilidade do trágico ao cômico.
Nilvio Pinheiro
segunda-feira, 16 de abril de 2012
METAMORFOSE AMBULANTE, DOCUMENTÁRIO MAGNETIZANTE
Parece notório que o cinema brasileiro atravessa uma fase bastante frutífera no que se trata de documentários. É indiscutível a genialidade de um artista como Raul Seixas, simplesmente um mito. Então o resultado da união do bom momento de nossos documentários com a força de Raulzito só poderia ser excelente. E é justamente o que o filme de Walter Carvalho, “Raul: o início, o fim e o meio”, é: excelente.
Confesso que sou suspeito e não tão isento para falar do filme, já que sou grande admirador da obra do Maluco Beleza. Mas o filme vai além do mito e chega até o menino baiano que gostava de se vestir e de andar à moda Elvis. Revela muito do homem e não fica apenas no mito. O documentário não se furta de polêmicas como a questão de que Marcelo Nova teria se aproveitado da imagem do roqueiro baiano para se promover. Não foge da inquietante vida amorosa e nem da fase um tanto satanista de Raul ao lado de Paulo Coelho.
É um documentário que traz histórias hilárias contadas em depoimentos de várias pessoas que fizeram parte da vida de Raul. Desde anônimos amigos de infância até um Caetano Veloso que em meio a várias falas nos presenteia com uma interpretação de “Ouro de Tolo”. E claro, há a forte presença do próprio cantor no longa. Raul aparece em clipes, gravações de shows, filmagens de momentos inusitados e até gravações de áudio como a de que canta uma música de Elvis tendo apenas nove anos de idade.
Não é um documentário recomendável. É obrigatório para quem acompanha e admira a obra do artista. E imprescindível para quem gosta de música ou de cinema. Vá, mergulhe no louco e genial mundo da Metamorfose Ambulante chamada Raul Seixas. Ele merece, e você também.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
CANÇÃO, de Allen Ginsberg
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano —
sai para fora do coração
ardendo de pureza —
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor —
esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
— não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
— deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro da carne,
a pele treme na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho —
sim, sim,
é isso o que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar ao corpo
em que nasci.
San Jose, 1954
ALLEN GINSBERG
CARTA DE MACHADO DE ASSIS AO BISPO DO RIO DE JANEIRO (Machado tinha apenas 23 anos)
CARTA AO SENHOR BISPO
DO RIO DE JANEIRO
[Rio de Janeiro, 18 de abril de 1862.]
Excelentíssimo reverendíssimo senhor,
No meio das práticas religiosas, a que as altas funções de prelado chamam hoje vossa excelência consinta que se possa ouvir o rogo, a queixa, a indignação, se não é duro o termo, de um cristão que é dos primeiros a admirar as raras e elevadas virtudes, que exornam a pessoa de vossa excelência.
Não casual, senão premeditada e muito de propósito, é a coincidência desta carta com o dia de hoje. Escolhi, como próprio, o dia da mais solene comemoração da igreja, para fazer chegar a vossa excelência algumas palavras sem atavios de polêmica, mas simplesmente nascidas do coração.
Estou afeito desde a infância a ouvir louvar as virtudes e os profundos conhecimentos de vossa excelência. Estes verifiquei-os mais tarde pela leitura das obras, que aí correm por honra de nossa terra; as virtudes, se as não apreciei de perto, creio nelas hoje como dantes, por serem contestes todos quantos têm a ventura de tratar de perto com vossa excelência.
É fiado nisso que me dirijo francamente à nossa primeira autoridade eclesiástica.
Logo ao começar este período de penitência e contrição, que está a findar, quando a igreja celebra a admirável história da redenção, apareceu nas colunas das folhas diárias da Corte um bem elaborado artigo, pedindo a supressão de certas práticas religiosas do nosso país, que por grotescas e ridículas, afetavam de algum modo a sublimidade de nossa religião.
Em muito boas razões se firmava o articulista para provar que as procissões, derivando de usanças pagãs, não podiam continuar a ser sancionadas por uma religião que veio destruir os cultos da gentilidade.
Mas a quaresma passou e as procissões com ela, e ainda hoje, Excelentíssimo Senhor, corre a população para assistir à que, sob a designação de Enterro do Senhor, vai percorrer esta noite as ruas da capital.
Não podem as almas verdadeiramente cristãs olhar para essas práticas
sem tristeza e dor.
As conseqüências de tais usanças são de primeira intuição. Aos espíritos menos cultos, a idéia religiosa, despida do que tem mais elevado e místico, apresenta-se com fórmulas mais materiais e mundanas. Aos que, menos rústicos, não tiveram, entretanto, bastante filosofia cristã para opor a esses espetáculos, a esses entibia-se a fé, e o ceticismo invade o coração.
E vossa excelência não poderá contestar que a nossa sociedade está afetada do flagelo da indiferença. Há indiferença em todas as classes, e a indiferença, melhor do que eu sabe vossa excelência, é o veneno sutil, que corrói fibra por fibra um corpo social.
Em vez de ensinar a religião pelo seu lado sublime, ou antes pela sua verdadeira e única face, é pelas cenas impróprias e improveitosas que a propagam. Os nossos ofícios e mais festividades, estão longe de oferecer a majestade e a gravidade imponente do culto cristão. São festas de folga, enfeitadas e confeitadas, falando muito aos olhos e nada ao coração.
Neste hábito de tornar os ofícios divinos em provas de ostentação, as confrarias e irmandades, destinadas à celebração dos respectivos oragos, levam o fervor até uma luta, vergonhosa e indigna, de influências pecuniárias; cabe a vitória à que melhor e mais pagãmente reveste a sua celebração.
Lembrarei entre outros fatos, a luta de duas ordens terceiras, hoje em tréguas, relativamente à procissão do dia de hoje. Nesse conflito só havia um fito – a ostentação dos recursos e do gosto, e um resultado que não era para a religião, mas sim para as paixões e interesses terrestres.
Para esta situação deplorável, Excelentíssimo Senhor, contribui imensamente o nosso clero. Sei que toco em chaga tremenda, mas vossa excelência reconhecerá sem dúvida que, mesmo errando, devo ser absolvido, atenta a pureza das intenções que levo no meu enunciado.
O nosso clero está longe de ser aquilo que pede a religião do cristianismo. Reservadas as exceções, o nosso sacerdote nada tem do caráter piedoso e nobre que convém aos ministros do crucificado.
E, a meu ver, não há religião que melhor possa contar bons e dignos levitas. Aqueles discípulos do filho de Deus, por promessa dele tornados pescadores de homens, deviam dar lugar a imitações severas e dignas; mas não é assim, excelentíssimo senhor, não há aqui sacerdócio, há ofício rendoso, como tal considerado pelos que o exercem, e os que o exercem são o vício e a ignorância, feitas as pouquíssimas e honrosas exceções. Não serei exagerado se disser que o altar tornou-se balcão e o evangelho tabuleta. Em que pese a esses duplamente pecadores, é preciso que vossa excelência ouça estas verdades.
As queixas são constantes e clamorosas contra o clero; eu não faço mais que reuni-las e enunciá-las por escrito.
Fundam-se elas em fatos que, pela vulgaridade, não merecem menção. Merca-se no templo, excelentíssimo senhor, como se mercava outrora quando Cristo expeliu os profanadores dos sagrados lares; mas a certeza de que um novo Cristo não virá expeli-los, e a própria tibieza da fé nesses corações, anima-os e põe-lhes na alma a tranqüilidade e o pouco caso pelo futuro.
Esta situação é funesta para a fé, funesta para a sociedade. Se, como creio, a religião é uma grande força, não só social, senão também humana, não se pode contestar que por esse lado a nossa sociedade contém em seu seio poderosos elementos de dissolução.
Dobram, entre nós, as razões pelas quais o clero de todos os países católicos tem sido acusado.
No meio da indiferença e do ceticismo social, qual era o papel que cabia ao clero? Um: converter-se ao Evangelho e ganhar nas consciências o terreno perdido. Não acontecendo assim, as invectivas praticadas pela imoralidade clerical, longe de afrouxarem e diminuírem, crescem de número e de energia.
Com a situação atual de chefe da igreja, vossa excelência compreende bem que triste resultado pode provir daqui.
Felizmente que a ignorância da maior parte dos nossos clérigos evita a organização de um partido clerical, que, com o pretexto de socorrer a Igreja nas suas tribulações temporais, venha lançar a perturbação nas consciências, nada adiantando à situação do supremo chefe católico.
Não sei se digo uma heresia, mas por esta vantagem acho que é de apreciar essa ignorância.
Dessa ignorância e dos maus costumes da falange eclesiástica é que nasce um poderoso auxílio ao estado do depreciamento da religião.
Proveniente dessa situação, a educação religiosa, dada no centro das famílias, não responde aos verdadeiros preceitos da fé. A religião é ensinada pela prática e como prática, e nunca pelo sentimento e como sentimento.
O indivíduo que se afaz desde a infância a essas fórmulas grotescas, se não tem por si a luz da filosofia, fica condenado para sempre a não compreender, e menos conceber, a verdadeira idéia religiosa.
E agora veja vossa excelência mais: há muito bom cristão que compara as nossas práticas católicas com as dos ritos dissidentes, e, para não mentir ao coração, dá preferência a elas por vê-las símplices, severas, graves, próprias do culto de Deus.
E realmente a diferença é considerável.
Note bem, excelentíssimo senhor, que eu me refiro somente às excrescências da nossa igreja católica, à prostituição do culto entre nós. Estou longe de condenar práticas sérias. O que revolta é ver a materialização grotesca das coisas divinas, quando elas devem ter manifestação mais elevada, e, aplicando a bela expressão de S. Paulo, estão escritas não com tinta, mas com o espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração.
O remédio a estes desregramentos da parte secular e eclesiástica empregada no culto da religião deve ser enérgico, posto que não se possa contar com resultados imediatos e definitivos.
Pôr um termo às velhas usanças dos tempos coloniais, e encaminhar o culto para melhores, para verdadeiras fórmulas; fazer praticar o ensino religioso como sentimento e como idéia, e moralizar o clero com as medidas convenientes, são, Excelentíssimo Senhor, necessidades urgentíssimas.
É grande o descrédito da religião, porque é grande o descrédito do clero. E vossa excelência deve saber que os maus intérpretes são nocivos aos dogmas mais santos.
Desacreditada a religião, abala-se essa grande base da moral, e onde irá parar esta sociedade?
Sei que vossa excelência se alguma coisa fizer no sentido de curar estas chagas, que não conhece, há de ver levantar-se em roda de si muitos inimigos, desses que devem-lhe ser pares no sofrimento e na glória. Mas vossa excelência é bastante cioso das coisas santas para olhar com desdém para as misérias eclesiásticas e levantar a sua consciência de sábio prelado acima dos interesses dos falsos ministros do altar.
Vossa excelência receberá os protestos de minha veneração e me deitará a
sua bênção.
[Machado de Assis]
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