CARTA AO SENHOR BISPO
DO RIO DE JANEIRO
[Rio de Janeiro, 18 de abril de 1862.]
Excelentíssimo reverendíssimo senhor,
No meio das práticas religiosas, a que as altas funções de prelado chamam hoje vossa excelência consinta que se possa ouvir o rogo, a queixa, a indignação, se não é duro o termo, de um cristão que é dos primeiros a admirar as raras e elevadas virtudes, que exornam a pessoa de vossa excelência.
Não casual, senão premeditada e muito de propósito, é a coincidência desta carta com o dia de hoje. Escolhi, como próprio, o dia da mais solene comemoração da igreja, para fazer chegar a vossa excelência algumas palavras sem atavios de polêmica, mas simplesmente nascidas do coração.
Estou afeito desde a infância a ouvir louvar as virtudes e os profundos conhecimentos de vossa excelência. Estes verifiquei-os mais tarde pela leitura das obras, que aí correm por honra de nossa terra; as virtudes, se as não apreciei de perto, creio nelas hoje como dantes, por serem contestes todos quantos têm a ventura de tratar de perto com vossa excelência.
É fiado nisso que me dirijo francamente à nossa primeira autoridade eclesiástica.
Logo ao começar este período de penitência e contrição, que está a findar, quando a igreja celebra a admirável história da redenção, apareceu nas colunas das folhas diárias da Corte um bem elaborado artigo, pedindo a supressão de certas práticas religiosas do nosso país, que por grotescas e ridículas, afetavam de algum modo a sublimidade de nossa religião.
Em muito boas razões se firmava o articulista para provar que as procissões, derivando de usanças pagãs, não podiam continuar a ser sancionadas por uma religião que veio destruir os cultos da gentilidade.
Mas a quaresma passou e as procissões com ela, e ainda hoje, Excelentíssimo Senhor, corre a população para assistir à que, sob a designação de Enterro do Senhor, vai percorrer esta noite as ruas da capital.
Não podem as almas verdadeiramente cristãs olhar para essas práticas
sem tristeza e dor.
As conseqüências de tais usanças são de primeira intuição. Aos espíritos menos cultos, a idéia religiosa, despida do que tem mais elevado e místico, apresenta-se com fórmulas mais materiais e mundanas. Aos que, menos rústicos, não tiveram, entretanto, bastante filosofia cristã para opor a esses espetáculos, a esses entibia-se a fé, e o ceticismo invade o coração.
E vossa excelência não poderá contestar que a nossa sociedade está afetada do flagelo da indiferença. Há indiferença em todas as classes, e a indiferença, melhor do que eu sabe vossa excelência, é o veneno sutil, que corrói fibra por fibra um corpo social.
Em vez de ensinar a religião pelo seu lado sublime, ou antes pela sua verdadeira e única face, é pelas cenas impróprias e improveitosas que a propagam. Os nossos ofícios e mais festividades, estão longe de oferecer a majestade e a gravidade imponente do culto cristão. São festas de folga, enfeitadas e confeitadas, falando muito aos olhos e nada ao coração.
Neste hábito de tornar os ofícios divinos em provas de ostentação, as confrarias e irmandades, destinadas à celebração dos respectivos oragos, levam o fervor até uma luta, vergonhosa e indigna, de influências pecuniárias; cabe a vitória à que melhor e mais pagãmente reveste a sua celebração.
Lembrarei entre outros fatos, a luta de duas ordens terceiras, hoje em tréguas, relativamente à procissão do dia de hoje. Nesse conflito só havia um fito – a ostentação dos recursos e do gosto, e um resultado que não era para a religião, mas sim para as paixões e interesses terrestres.
Para esta situação deplorável, Excelentíssimo Senhor, contribui imensamente o nosso clero. Sei que toco em chaga tremenda, mas vossa excelência reconhecerá sem dúvida que, mesmo errando, devo ser absolvido, atenta a pureza das intenções que levo no meu enunciado.
O nosso clero está longe de ser aquilo que pede a religião do cristianismo. Reservadas as exceções, o nosso sacerdote nada tem do caráter piedoso e nobre que convém aos ministros do crucificado.
E, a meu ver, não há religião que melhor possa contar bons e dignos levitas. Aqueles discípulos do filho de Deus, por promessa dele tornados pescadores de homens, deviam dar lugar a imitações severas e dignas; mas não é assim, excelentíssimo senhor, não há aqui sacerdócio, há ofício rendoso, como tal considerado pelos que o exercem, e os que o exercem são o vício e a ignorância, feitas as pouquíssimas e honrosas exceções. Não serei exagerado se disser que o altar tornou-se balcão e o evangelho tabuleta. Em que pese a esses duplamente pecadores, é preciso que vossa excelência ouça estas verdades.
As queixas são constantes e clamorosas contra o clero; eu não faço mais que reuni-las e enunciá-las por escrito.
Fundam-se elas em fatos que, pela vulgaridade, não merecem menção. Merca-se no templo, excelentíssimo senhor, como se mercava outrora quando Cristo expeliu os profanadores dos sagrados lares; mas a certeza de que um novo Cristo não virá expeli-los, e a própria tibieza da fé nesses corações, anima-os e põe-lhes na alma a tranqüilidade e o pouco caso pelo futuro.
Esta situação é funesta para a fé, funesta para a sociedade. Se, como creio, a religião é uma grande força, não só social, senão também humana, não se pode contestar que por esse lado a nossa sociedade contém em seu seio poderosos elementos de dissolução.
Dobram, entre nós, as razões pelas quais o clero de todos os países católicos tem sido acusado.
No meio da indiferença e do ceticismo social, qual era o papel que cabia ao clero? Um: converter-se ao Evangelho e ganhar nas consciências o terreno perdido. Não acontecendo assim, as invectivas praticadas pela imoralidade clerical, longe de afrouxarem e diminuírem, crescem de número e de energia.
Com a situação atual de chefe da igreja, vossa excelência compreende bem que triste resultado pode provir daqui.
Felizmente que a ignorância da maior parte dos nossos clérigos evita a organização de um partido clerical, que, com o pretexto de socorrer a Igreja nas suas tribulações temporais, venha lançar a perturbação nas consciências, nada adiantando à situação do supremo chefe católico.
Não sei se digo uma heresia, mas por esta vantagem acho que é de apreciar essa ignorância.
Dessa ignorância e dos maus costumes da falange eclesiástica é que nasce um poderoso auxílio ao estado do depreciamento da religião.
Proveniente dessa situação, a educação religiosa, dada no centro das famílias, não responde aos verdadeiros preceitos da fé. A religião é ensinada pela prática e como prática, e nunca pelo sentimento e como sentimento.
O indivíduo que se afaz desde a infância a essas fórmulas grotescas, se não tem por si a luz da filosofia, fica condenado para sempre a não compreender, e menos conceber, a verdadeira idéia religiosa.
E agora veja vossa excelência mais: há muito bom cristão que compara as nossas práticas católicas com as dos ritos dissidentes, e, para não mentir ao coração, dá preferência a elas por vê-las símplices, severas, graves, próprias do culto de Deus.
E realmente a diferença é considerável.
Note bem, excelentíssimo senhor, que eu me refiro somente às excrescências da nossa igreja católica, à prostituição do culto entre nós. Estou longe de condenar práticas sérias. O que revolta é ver a materialização grotesca das coisas divinas, quando elas devem ter manifestação mais elevada, e, aplicando a bela expressão de S. Paulo, estão escritas não com tinta, mas com o espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração.
O remédio a estes desregramentos da parte secular e eclesiástica empregada no culto da religião deve ser enérgico, posto que não se possa contar com resultados imediatos e definitivos.
Pôr um termo às velhas usanças dos tempos coloniais, e encaminhar o culto para melhores, para verdadeiras fórmulas; fazer praticar o ensino religioso como sentimento e como idéia, e moralizar o clero com as medidas convenientes, são, Excelentíssimo Senhor, necessidades urgentíssimas.
É grande o descrédito da religião, porque é grande o descrédito do clero. E vossa excelência deve saber que os maus intérpretes são nocivos aos dogmas mais santos.
Desacreditada a religião, abala-se essa grande base da moral, e onde irá parar esta sociedade?
Sei que vossa excelência se alguma coisa fizer no sentido de curar estas chagas, que não conhece, há de ver levantar-se em roda de si muitos inimigos, desses que devem-lhe ser pares no sofrimento e na glória. Mas vossa excelência é bastante cioso das coisas santas para olhar com desdém para as misérias eclesiásticas e levantar a sua consciência de sábio prelado acima dos interesses dos falsos ministros do altar.
Vossa excelência receberá os protestos de minha veneração e me deitará a
sua bênção.
[Machado de Assis]
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