Sabia que a noite de quarta feira, dia 21 de março de 2012, seria de fortes emoções, afinal, era dia de jogo do Vasco pela Copa Libertadores da América, a competição mais importante da América do Sul e cujos jogos são sempre complicados. Além disso, alguns jogadores foram vítimas de racismo por parte da torcida do time paraguaio no jogo na casa deles e agora a torcida do Vasco prometia uma grande manifestação contra o racismo. Dito e feito. Quando eu e mais dois amigos entramos no estádio de São Januário, logo nos deparamos com membros de uma torcida organizada pintando os rostos dos outros torcedores de metade preto, metade branco. De caras pintadas, fomos para a guerra, ou melhor, para o jogo.
Esqueci de dizer que antes de encontrar com esses amigos, quando estava chegando para encontrá-los do lado de fora do estádio, a torcida cruz-maltina recebeu o ônibus da delegação paraguaia com pedradas e garrafadas, chegando a quebrar um dos vidros do veículo. Como resposta veio a polícia com uma mega bomba de efeito moral. Pus-me a correr para fugir do alcance da bomba, não antes de ainda sentir alguma ardência nos olhos e na garganta. Como previsto, o jogo não foi fácil, mas o Vasco venceu com muita garra e sem grandes ameaças. Saímos, nos despedimos e rumei para o ponto de ônibus, não antes de comprar mais um lata de cerveja e beber à vitória de 2 a 0. Cheguei no ponto e lá estava um ônibus quase vazio me esperando. Peguei-o e logo dormi, apaguei para só acordar já no meu bairro.
Fora do ônibus, rumando para casa, deparei-me com uma cena bastante bacana. Uma mulher, na certa uma evangélica, distribuindo comida a alguns moradores de rua e orando por eles. É muito bom ver alguém deixando o cômodo ar condicionado das igrejas e realmente fazendo algo bom por alguém. Dormiria muito bem se a noite terminasse ali. A vitória do meu time, somada à bela iniciativa da mulher religiosa, perfeito. Porém não terminou ali. Pouco mais à frente, chegava perto de um posto de gasolina, quando o frentista, esbaforido, atabalhoado veio em minha direção, visivelmente muito nervoso, pedir para ligar para a policial do meu celular, pois ele acabara de ser assaltado. Liguei para a polícia e uma policial me atendeu dizendo que mandaria uma viatura para o local. O frentista me agradeceu e começou a me contar que um assaltante saiu de um carro que para próximo ao posto usando uma máscara de bate-bola, clóvis, enfim, de fantasia de carnaval. Foi a senha para um carro adentrar a rua e parar próximo ao posto. Quando vi um homem de máscara carnavalesca saindo de dentro do carro portando uma arma mais que rapidamente saí do posto andando apressadamente – tive medo de correr e chamar atenção do marginal – na direção contrária de onde eu havia vindo. Parei próximo a um caminhão de lixo a cerca de cinquenta metros da esquina onde o posto se encontrava, onde não dava para ter a visão do que ocorria e fiquei aguardando o estrondo de um possível tiro da arma.
Com a predominância do silêncio, resolvi avançar em direção ao posto mais uma vez. Novamente avistei o frentista mais desesperado ainda. Relatou que foi agredido com um soco no rosto, fato que já era denunciado pelo inchaço que lhe crescia logo abaixo do olho direito. Os assaltantes haviam voltado por terem constatado que levaram, no entender deles, pouco dinheiro. A polícia demorava e então o frentista me pediu, na verdade, apelou para que eu não o deixasse sozinho, que aguardasse a chegada dos bravos representantes da lei do Estado de Direita ...ops... de Direito, desculpe. Claro e evidente que sentia medo e hesitei em responder, mas aí veio outro argumento ainda mais apelativo: “poxa cara, é um pedido de trabalhador para trabalhador!”. Como não podia ser diferente, depois de tal declaração, disse-lhe que ficaria com ele até a chegada dos bravos heróis de farda, que após decidir ficar, para minha sorte, não demoraram muito. Eles chegaram e, após ouvir o relato do pobre infeliz assaltado, agredido e apavorado, anotaram algumas informações e disseram que não poderiam fazer mais nada. Que ele teria de ir à delegacia pela manhã e prestar queixa. Mediante o tamanho ato de bravura por parte desses guerreiros, despedi-me do frentista que me agradeceu efusivamente. Mas não fui embora antes de o policial olhar bem para o meu rosto e me perguntar: “você costuma andar sempre pintado desse jeito pela rua?” Só nesse momento lembrei de que estava com o rosto pintado de preto e branco. Tive vontade de responder que só saía assim quando havia frentistas indefesos aguardando a chegada de policiais que não chegam, mas optei por não falar, porque poderia soar desrespeitoso e não queria ofender o paladino da justiça. Já preocupado com o avançado da hora, já passava das duas da manhã, peguei o rumo de casa. Porém, ainda antes de sair, ouvi o frentista dizer “vai com Deus”. E durante o percurso até o lar, fiquei imaginando o contraste entre o ato altruísta da caridosa senhora que alimentava o corpo e a alma de alguns moradores de rua e a desumanidade dos bandidos e a negligência dos homens fardados.
De tal reflexão, sabe a qual conclusão que cheguei? Nenhuma. Até porque logo cheguei em casa e, ao deitar a cabeça no travesseiro, vieram à tona a vitória dos verdadeiros Heróis da Colina Cruz-Maltina, a manifestação antirracismo da brava torcida vascaína e resolvi dormir com essas imagens na memória, pois, depois de uma noite tão intensa, dormir com a cabeça em algo que te deixa em paz e feliz parecia fundamental.

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