Da tragédia à comédia. Na Grécia? Não. Na favela.
À
tarde.
Favela
da Vila de Jesus.
(os nomes mais santos são, geralmente, os dos lugares menos sacros)
Alaor e Ygor
voltavam da escola.
Param na
padaria.
Sanduíche de “mortandela”
e guaraná.
Blazer preta
em alta velocidade para.
Três tiros.
Balas perdidas
que encontram a cabeça do chefe da milícia da favela.
Os dois jovens
sem a menor reação olham
um cara, uma cara,
um rosto
desfigurado
cravejado
de tiro.
De repente,
num estalo,
correm
desembestados.
Param num
beco.
―Caralho!
Puta que pariu! Tu viu Laor?! Quebraram o Toinho Bafo Podre!
―Porra! Tu
viu aquela “brazer”? Veio mandada ae!
―Aquela o
quê?
―Aquela “brazer”
porra! Tu não viu caralho?!
― Hahahaha
”Brazer” é meu pau porra! É blazer seu burro!
Alaor
ameaçou reagir. Parecia demonstrar raiva. Mas, de repente, não agüentou com a
própria situação e se escangalhou de rir. A gargalhada dos dois misturava-se
com o som da sirene da polícia. O contato corriqueiro com a violência faz com
que jovens como Alaor e Ygor transitem, num mesmo momento, com extrema
facilidade do trágico ao cômico.
Nilvio Pinheiro
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