"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

sábado, 21 de abril de 2012

Da tragédia à comédia. Na Grécia? Não. Na favela.


Da tragédia à comédia. Na Grécia? Não. Na favela.

                À tarde. 

                Favela da Vila de Jesus.

 (os nomes mais santos são, geralmente, os dos lugares menos sacros)

Alaor e Ygor voltavam da escola.

Param na padaria. 

Sanduíche de “mortandela” e guaraná.

Blazer preta em alta velocidade para.

Três tiros.

Balas perdidas que encontram a cabeça do chefe da milícia da favela.

Os dois jovens sem a menor reação olham

um cara, uma cara, um rosto

desfigurado

cravejado

de tiro.

De repente,

num estalo,

correm desembestados.

Param num beco.

―Caralho! Puta que pariu! Tu viu Laor?! Quebraram o Toinho Bafo Podre!
―Porra! Tu viu aquela “brazer”? Veio mandada ae!
―Aquela o quê?
―Aquela “brazer” porra! Tu não viu caralho?!
― Hahahaha ”Brazer” é meu pau porra! É blazer seu burro!

Alaor ameaçou reagir. Parecia demonstrar raiva. Mas, de repente, não agüentou com a própria situação e se escangalhou de rir. A gargalhada dos dois misturava-se com o som da sirene da polícia. O contato corriqueiro com a violência faz com que jovens como Alaor e Ygor transitem, num mesmo momento, com extrema facilidade do trágico ao cômico.

Nilvio Pinheiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário