Se tem um vilão do cinema contemporâneo que
com certeza já tem seu lugar na história da sétima arte é Anton Chigurh.
Brilhantemente interpretado por Javier Barden, o antagonista de “Onde os fracos
não têm vez”, dos irmãos Cohen, é a própria personificação da violência. Ele
surge do nada e vai para o nada. Ele mata porque essa é a sua função, essa é a
sua natureza, esse é o seu estilo de vida, código de honra e etc.
Anton na verdade é apenas uma representação
da violência, do terror. Ela não tem um rosto específico. Pode surgir de um
traficante, de um terrorista, um usuário de drogas ou mesmo do marido com a própria
esposa. Mas, ao mesmo tempo em que ela não tem um rosto, ela pode assumir
vários rostos. Muitas vezes são construídos rostos para que a sociedade, que
tem necessidade de dar um rosto ao terror, tenha alguma sensação de segurança,
mesmo que ilusória. E, não raro, esses rostos são construídos estrategicamente
para desviar o foco de onde realmente a violência está vindo. A violência já
teve o rosto de Saddam
Hussein, quando na verdade o terror maior, em termos globais, estava em outro
lugar.
Em um determinado momento do filme “Homem
de Ferro 3”(o melhor da franquia até aqui), Aldrich Killian, vivido por Guy
Pearce, diz que só deu um rosto ao terror ao usar de uma artimanha que não
posso revelar sem estragar uma surpresinha do filme. Mas o que ele diz é
justamente o que expus no parágrafo acima. Na verdade, ele mesmo acaba sendo somente
um rosto. Seja este fictício como o do Mandarim (na pele do ótimo Bem Kigsley),
do Aldrich, seja real como o do Bush, Bin Laden ou Nem da Rocinha, são só
rostos que representam uma violência cada vez mais global impetrada pelo sistema
capitalista.
O capitalismo não inventou a ganância, o
egoísmo, e outros sentimentos tão pouco nobres e cada vez mais crescentes em
nossa sociedade. Mas foi o capital que os exacerbou. Ele os eleva até a máxima
potência. Não interessa se milhares de iraquianos, afegãs ou palestinos irão
morrer, o que interessa é a manutenção do sistema e dos países que o encabeçam.
“Homem
de Ferro 3” não é um grande filme filosófico. Nem aprofunda tanto essas
questões. Mas as levanta. E isso por si só já é louvável em um mega filme
comercial como é o caso. Em certo ponto, até rechaça a patriotada americana tão
típica dos longas hollywoodianos (como na crítica de Tony Stark à mudança do nome
da armadura que criou para o seu amigo James Rhodes (Don Cheadle)de Máquina de
Combate para Patriota de Ferro. Sem falar que é bom ver um filme, que é
notoriamente comercial, ter também uma preocupação com o roteiro (que é bom) e
não só com as já rotineiras explosões e clichês desse tipo de obra.
Outra
coisa a se destacar é a atuação de Robert Downey Jr. O ator está cada vez mais
à vontade vivendo o protagonista Tony Stark que é um personagem que tem lá sua
complexidade. Dá o tom perfeito ao personagem variando muito bem entre o drama
e o humor típico do herói.
Mais
uma vez. Não quero enganar ninguém. “Homem de Ferro 3” é um filme comercial,
com efeitos de computador e explosões a três por quatro, e que com certeza irá
explodir também na bilheteria. Entretanto é um longa que pode nos levar a
refletir um pouco, ainda mais em tempos de ataque terrorista em Boston, ameaça
de guerra entre Coreias e o eterno conflito entre Israel e Palestina. Lembremos
que os rostos e nomes mudam, mas o real inimigo continua sendo o mesmo.
Nilvio P. Pinheiro



