"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

sexta-feira, 26 de abril de 2013

"HOMEM DE FERRO 3": O INIMIGO AGORA É O MESMO



     Se tem um vilão do cinema contemporâneo que com certeza já tem seu lugar na história da sétima arte é Anton Chigurh. Brilhantemente interpretado por Javier Barden, o antagonista de “Onde os fracos não têm vez”, dos irmãos Cohen, é a própria personificação da violência. Ele surge do nada e vai para o nada. Ele mata porque essa é a sua função, essa é a sua natureza, esse é o seu estilo de vida, código de honra e etc.

     Anton na verdade é apenas uma representação da violência, do terror. Ela não tem um rosto específico. Pode surgir de um traficante, de um terrorista, um usuário de drogas ou mesmo do marido com a própria esposa. Mas, ao mesmo tempo em que ela não tem um rosto, ela pode assumir vários rostos. Muitas vezes são construídos rostos para que a sociedade, que tem necessidade de dar um rosto ao terror, tenha alguma sensação de segurança, mesmo que ilusória. E, não raro, esses rostos são construídos estrategicamente para desviar o foco de onde realmente a violência está vindo. A violência já teve o rosto de Saddam Hussein, quando na verdade o terror maior, em termos globais, estava em outro lugar.

     Em um determinado momento do filme “Homem de Ferro 3”(o melhor da franquia até aqui), Aldrich Killian, vivido por Guy Pearce, diz que só deu um rosto ao terror ao usar de uma artimanha que não posso revelar sem estragar uma surpresinha do filme. Mas o que ele diz é justamente o que expus no parágrafo acima. Na verdade, ele mesmo acaba sendo somente um rosto. Seja este fictício como o do Mandarim (na pele do ótimo Bem Kigsley), do Aldrich, seja real como o do Bush, Bin Laden ou Nem da Rocinha, são só rostos que representam uma violência cada vez mais global impetrada pelo sistema capitalista.


     O capitalismo não inventou a ganância, o egoísmo, e outros sentimentos tão pouco nobres e cada vez mais crescentes em nossa sociedade. Mas foi o capital que os exacerbou. Ele os eleva até a máxima potência. Não interessa se milhares de iraquianos, afegãs ou palestinos irão morrer, o que interessa é a manutenção do sistema e dos países que o encabeçam.

“Homem de Ferro 3” não é um grande filme filosófico. Nem aprofunda tanto essas questões. Mas as levanta. E isso por si só já é louvável em um mega filme comercial como é o caso. Em certo ponto, até rechaça a patriotada americana tão típica dos longas hollywoodianos (como na crítica de Tony Stark à mudança do nome da armadura que criou para o seu amigo James Rhodes (Don Cheadle)de Máquina de Combate para Patriota de Ferro. Sem falar que é bom ver um filme, que é notoriamente comercial, ter também uma preocupação com o roteiro (que é bom) e não só com as já rotineiras explosões e clichês desse tipo de obra.

Outra coisa a se destacar é a atuação de Robert Downey Jr. O ator está cada vez mais à vontade vivendo o protagonista Tony Stark que é um personagem que tem lá sua complexidade. Dá o tom perfeito ao personagem variando muito bem entre o drama e o humor típico do herói.

Mais uma vez. Não quero enganar ninguém. “Homem de Ferro 3” é um filme comercial, com efeitos de computador e explosões a três por quatro, e que com certeza irá explodir também na bilheteria. Entretanto é um longa que pode nos levar a refletir um pouco, ainda mais em tempos de ataque terrorista em Boston, ameaça de guerra entre Coreias e o eterno conflito entre Israel e Palestina. Lembremos que os rostos e nomes mudam, mas o real inimigo continua sendo o mesmo.

Nilvio P. Pinheiro

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