"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O caso Freixo e as artimanhas da Globo

   Logo após a imprensa toda noticiar as graves e estarrecedoras ameaças que o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) recebeu de milicianos e o convite da Anistia Internacional para sair do país até que seja montado um esquema de segurança eficiente, coisa que a incompetente Secretaria Estadual de Segurança não havia conseguido fazer, veículos de comunicação das Organizações Globo, tentaram deslegitimar os motivos do deputado, alegando que Freixo iria dar palestras no exterior e que havia omitido isso para tirar proveito político. Notícia que foi logo desmentida pela própria Anistia Internacional, que confirmou que o convite visava à proteção do parlamentar fluminense.
     A desfaçatez do Grupo Globo parece não ter limites. Quando o bom senso e a responsabilidade social indicavam para a promoção de uma discussão em torno do perigoso fortalecimento de grupos milicianos que controlam várias localidades no Estado do Rio de Janeiro, essa instituição que tanto diz prezar pelos valores morais e pelo bem social, desvia o foco para um discussão política despropositada. Talvez motivada por um receio da popularidade que Marcelo Freixo pode ganhar com o caso das ameaças. Receio porque o deputado, que foi quem inspirou a criação do personagem Fraga no filme "Tropa de Elite II", é um dos possíveis candidatos à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro nas eleições do ano que vem. Uma vitória de Freixo, de notória ideologia esquerdista, não deve ser vista com bons olhos pela Globo, notoriamente burguesa, capitalista e elitista.
     Enquanto Marcelo Freixo não volta da Europa e ainda se aguarda definições do cenário político para o ano que vem, cabe à sociedade já ir refletindo sobre essa questão. Será que seria bom para a população a manutenção do modelo de governo defendido pela Globo e aproveitado por políticos de índole duvidosa como o prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral e também por políticos ligados a milicianos como o apresentador da Rede Record (outra emissora de negócios obscuros) Wagner Montes? Será que não seria melhor optarmos por uma mudança real na maneira de se governar, sem imediatismos, populismos e obras eleitoreiras de orçamento duvidoso? Uma maneira de governar que realmente olhe para áreas essenciais para a população como saúde, educação e segurança, sem planos que são mais medidas paliativas (e novas formas de ganhar dinheiro), do que soluções de fato.
    Parece-me que políticos como Marcelo Freixo, que não se calam, que não se acomodam diante das atrocidades que são cometidas contra a população, podem representar essa nova maneira de fazer política. Não custa nada tentar, custa-nos é continuar nesse mar de lama que para onde estão levando a cidade e o estado do Rio de Janeiro.

Nilvio P. Pinheiro

AURORA - XXII (de: As iluminações)

Abracei a aurora do verão.

Nada ainda se movia à frente dos palácios. A água estava morta. Os acampamentos de sombra não abandonavam o caminho do bosque. Andei, despertando os sopros vivos e tépidos, e as pedrarias olharam, e as asas se levantaram sem ruído.

O primeiro objetivo foi, na vereda já cheia de lívidos e recentes lampejos, uma flor que me disse seu nome.

Eu ri diante da fulva queda d'água que se desgrenhava através dos abetos: no cimo prateado, reconheci a deusa.

Então, eu levantava os véus, um a um. Na alameda, agitando os braços. Pela planície, onde mostrei-a para o gato. Na grande cidade, ela fugia entre as cúpulas e campanários, e, correndo como um mendigo sobre as plataformas de mármore, eu a perseguia.

No alto do caminho, perto de um bosque de loureiros. envolvi-a com seus véus amontoados e senti um pouco seu corpo imenso. A aurora e a criança tombaram no bosque.

No despertar, era meio-dia.

Artur Rimbaud

Nem foi preso

Nem foi preso,


mas outro bandido


muito mais poderoso e perigoso...


Nem foi preso.

Nilvio P. Pinheiro

sábado, 5 de novembro de 2011

Trecho do livro Viagem à Nossa Terra (1846), do escritor português Almeida Garret:

"(...) Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento Inglês, onde, depois de tantas comissões de inquéritos já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes de tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis (p. 36). (...)"
GARRETT, Almeida: Viagens à minha terra. São Paulo: Editora Três, 1973. 

Caro Almeida Garret, de 1846 (o ano da publicação da primeira edição do seu livro) para os dias atuais do corrente ano de 2011, as coisas só pioraram, e muito.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os Ex-Impérios

De Império a Empréstimos

O Império da Grécia
se tornou uma terra
onde hoje
reina a confusão
todos falam grego
e ninguém se entende

Os Ex-Impérios

PORTUGAL

Fado Tropical

Oh, musa do meu fado,
Oh, minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro abril,

Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal:
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!
Chico Buraque de Holanda


Diário de Notícias
Fevereiro de 2009

nacional

Portugal vive pior crise desde 1993


Produção final. A economia estagnou e entrou em recessão nos últimos meses do ano passado. Pelo sétimo ano consecutivo, os portugueses perdem nível de vida frente aos europeus. Governo teme agravamento

Caro Chico,
Acho que o nosso querido
Portugal está a virar um pequenino Brasil 
e, hoje em dia, 
com mais ex-cravos do que cravos.




quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Não sou adepto da violência, mas diante da passividade, da acomodação com a qual o povo brasileiro e em especial o carioca lida com os absurdos que vemos acontecer por aí, acredito que o método expresso nesse belo poema em prosa do poeta francês Charles Baudelaire, poderia ser muito bem empregado por aqui. Confiram.
 
Espanquemos os Pobres

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública – dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.
Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma idéia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a idéia de uma idéia, algo de infinitamente vago.
E saí com uma grande sede. Porque o gosto apaixonado por más leituras engendra uma necessidade proporcional de grandes ares e de muitas bebidas refrescantes.
Quando ia entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu com um desses inesquecíveis olhares que derrubariam tronos, se é que o espírito removesse a matéria e se o olho de um hipnotizador fizesse as uvas amadurecerem.
Ouvi, ao mesmo tempo, uma voz que me cochichava ao ouvido, uma voz que eu me reconheci bem; era a voz de um bom Anjo ou um bom Demônio, que me acompanha por todos os lugares. Se Sócrates tinha seu bom Demônio, por que eu não havia de ter o meu bom Anjo, e por que não teria eu a honra, como Sócrates, de obter um brevê de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo bem informado Baillarger?
Existe essa diferença entre o Demônio de Sócrates e o meu, pois o de Sócrates só se manifestava a ele para proibir, advertir, impedir, e que o meu dignava-se a aconselhar, sugerir, persuadir; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, um Demônio de combate.
Ora, sua voz cochichava isso: “Quem for igual ao outro que o prove e só é digno de liberdade quem a sabe conquistar.”
Imediatamente saltei sobre meu mendigo. Com um único soco fechei-lhe um olho, que, em um segundo, tornou-se inchado como uma bola. Quebrei uma unha ao partir-lhe dois dentes, e como eu não me sentisse bastante forte, tendo nascido de compleição delicada e tivesse pouca prática de boxe, para desancar aquele velho, peguei-o com uma das mãos pela gola de seu casaco e com a outra lhe agarrei a garganta e me pus a sacudi-lo, vigorosamente, cabeça contra a parede. Devo confessar que já havia previamente inspecionado os arredores com uma olhada e havia verificado que naquele subúrbio deserto eu me achava, por algum tempo, fora do alcance de qualquer policial.
Tendo, em seguida, com um pontapé, dado em suas costas, bastante enérgico para lhe quebrar as omoplatas, botei por terra aquele sexagenário enfraquecido; peguei, então, um grosso galho de árvore, que estava jogado no chão, e bati nele com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bife.
De repetente – ó milagre! Ó alegria do filósofo que verifica a excelência de sua teoria – vi esta antiga carcaça se virar, se levantar com uma energia que eu jamais suspeitaria que houvesse numa máquina de tal modo danificada, e, com um olhar de raiva que me pareceu de bom augúrio, o malandro decrépito jogou-se sobre mim, socou-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, bateu-me fortemente. Pela minha enérgica medicação, eu lhe havia restituído o orgulho e a vida.
Então, eu lhe fiz sinais enérgicos para que compreendesse que eu considerava nossa discussão terminada e, levantando-me com a satisfação de um sofista de Pórtico, lhe disse: “Meu senhor, o senhor é meu igual! Queira dar-me a honra de aceitar que eu divida minha bolsa consigo, e lembre-se: se você é realmente filantropo, que é preciso aplicar, em todos os seus confrades, quando eles lhe pedirem esmolas, a mesma teoria que eu tive o sofrimento de experimentar sobre suas costas.”
Ele me jurou que havia compreendido a minha teoria e que obedeceria aos meus conselhos.

Charles Baudelaire

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Por que asas, se pombo? Por que pombo, se asas?

      Um dia desses estava a dirigir por uma dessas ruas residenciais do subúrbio carioca. Curta, com paralelepipedos e várias casas simples com pequenos quintais. Ia sossegado, devagar, até que um pombo atravessa na frente do carro. Freiei bruscamente, mas não deu pra parar, pelo menos não antes de o carro passar sobre o pombo. Cheguei a sentir a ave tocando na parte de baixo do carro. Olhei rapidamente pra trás e, para o meu alívio, o pombo estava lá, milagrosamente inteiro. Não que tenha apreço por pombos, pelo contrário, nutro até uma certa antipatia por causa da toxoplasmose, mas é que não me apetece a ideia de matar o pobre animal.
      Este episódio me lançou diretamente a outro um pouco mais distante no passado. Estava caminhando bastante animado, afinal ia assistir a um jogo do bom e velho Clube de Regatas Vasco da Gama. Era um daqueles dias em que você acorda se sentindo muito bem, eu estava prestes a me sentir capaz de voar, foi quando vi uma cena muito intrigante. Um pombo tentando atravessar a pé (ou a patas né, tanto faz), uma movimentada avenida de Campo Grande. Parei para observar aquele fato inusitado. O bicho tentando insistentemente, em vão, chegar ao outro lado da avenida pelo chão. Só podia ser muito idiota ou muito audacioso, com a minha opinião tendendo para a primeira opção. E quanto mais ele insistia na sua imbecil empreitada, mais me pasmava com aquela situação que começava a me indignar, afinal de contas qual o homem que nunca desejou ter asas para fugir de engarrafamentos ou qualquer outro contratempo? E esse bendito animal tem e não as usa. Me deu vontade de gritar: "Porra, pombo! Voa!" Felizmente, antes de chegar a tal ponto, o infeliz, enfim, bateu asas e voou.
      Fiquei então a pensar, tudo bem em Deus não dar asas a animais tão maquiavélicos como o homem e a cobra, mas tinha que dar logo para um bicho tão idiota como o pombo?!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Para comprovar a minha criatividade, irei abrir minhas postagens com um poema que não é meu, mas que pelo qual tenho muito apreço

O Poeta do Hediondo

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto...

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!

Augusto dos anjos