"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

domingo, 27 de maio de 2012

CONVERSA DE BOTAS BATIDAS - ACONTECEU, VIROU MÚSICA


Conversa de Botas Batidas – Aconteceu, virou música

25 de setembro de 2012, o desabamento de um hotel na rua mata duas pessoas. Um professor de 71 anos e uma bancária de 62 anos foram encontrados nus, abraçados sob os escombros. Eram amantes.  Ambos eram casados, e suas respectivas famílias não sabiam de absolutamente nada.
Somente os dois morreram, pois houve tempo hábil de o porteiro avisar a todo o pessoal que estava no local após ouvir estalos vindos da estrutura do prédio. Raimundo Barbosa relatou que ainda bateu na porta do quarto onde o casal se encontrava, mas ninguém respondeu.
O porquê de não responderem, de não correrem para salvar suas vidas foi o que levou o cantor Marcelo Camelo, um dos vocalistas da banda Los Hermanos, a compor a música “Conversa de Botas Batidas”, onde o artista cria, de forma muito poética, o derradeiro diálogo que os amantes teriam tido momentos antes das suas mortes .

Ouçam a música que foi tocada no show da banda no Cine Iris: 

 A letra da música:

Conversa de Botas Batidas
Veja você, onde é que o barco foi desaguar
A gente só queria um amor
Deus parece às vezes se esquecer
Ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
Que a gente vai passar

Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder
E se amar, se amar até o fim
Sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar

Abre a janela agora
Deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
Que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
Que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
E agora está de bem

Deixa o moço bater
Que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos
Pra um amor de tantas rugas
Não ter o seu lugar
Diz, quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além
Vão dizer, que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela vai cair


sábado, 26 de maio de 2012

INTELECTUALOIDISMO DE ESQUERDA



            O trabalhador acorda cedo. Sai para ir ao trabalho. Para numa banca e se depara com várias opções de jornais. Pode comprar o “Extra”, “Meia Hora”, “Expresso”, “O Dia”. Se for um pouco mais requintado, pode comprar “O Globo”. Ou seja, a mídia capitalista está em todas as classes. Jornais impressos, rádios, telejornais, eles também estão em todos os tipos de mídias.
Alguns pseudoespecialistas falam em crise do Capital. Como pode estar em crise o sistema que controla mente das pessoas? Como pode estar em crise o sistema que dita o que os indivíduos vão ter vontade de comprar? Ou em quem vão votar? Como pode estar em crise um sistema que controla os próprios meios para sair da crise?
Não. O capitalismo não está em crise. Pode ter sim, sentido um abalo. Mas tal qual um vírus, ele sofre uma mutação que lhe garantirá uma boa sobrevida. Esta mutação poderia ser evitada e combatida se tivéssemos um movimento de esquerda coeso e realmente alinhado com o povo. Os esparsos golpes que os movimentos de esquerda brasileiros conseguem aplicar à elite burguesa funcionam como antibióticos mal utilizados que só fazem com que o vírus capitalista se transforme e se fortaleça. Vemos discussões fervorosas em defesas de vários pontos de vista dos mais variados militantes esquerdistas.
Alguns mais radicais, outros menos. Alguns grandes devoradores de Marx, outros menos embasados, mas críticos e conhecedores o suficiente para debater. Enquanto os ricos debates recheados de teses acadêmicas revolucionárias se esquentam, trabalhadores de todo Brasil continuam se espremendo em coletivos hiperlotados. Crianças e adolescentes continuam tendo uma educação precária com professores mal formados, mal pagos e mal aparelhados. Homens, mulheres, crianças e idosos sofrem em filas de hospitais para serem atendidos por médicos (alguns incompetentes ou negligentes) com poucos e débeis recursos. Policias criminosos continuam desrespeitando e até matando negros e pobres em favelas e comunidades pobres. Trabalhadores rurais são escravizados e mortos no campo. Ou seja, enquanto a esquerda debate sobre o sexo dos anjos marxistas, o Capital continua com sua mão forte e pesada chicoteando o lombo do povo brasileiro.
É fato. A esquerda, movimentos de motivação socialista de um forma geral não falam a língua do povo. Não dialogam com o povo. Não atingem grandes massas. Não há um projeto para a esquerda se fazer ouvir. Pensadores, políticos, militantes, esquerdistas de uma forma geral são taxados como loucos porque o que falam, o povo não entende. Entraram num estereótipo que foi criado para eles e de lá não saem. O pensamento socialista parece se cristalizar, se engessar. Fala-se em luta contra o capital, mas essa luta está perdida há muito tempo, porque ninguém parece fazer nada realmente consistente para tentar revertê-la.
Perguntar não ofende: qual jornal impresso, revista periódico, enfim, qual publicação de ótica esquerdista que dialoga com as massas? Temos algumas publicações com esse tipo de pensamento, mas dialogam mais com iniciados, ou seja, uma espécie de elite esquerdista. Não atingem o povo. Qual programa jornalístico independente de televisão tem um ponto de vista de motivação socialista? Como vencer quem domina o pensamento do povo se não se presta a realmente dialogar com este?
Esta distância em relação à massa popular e esse academicismo esquerdista não nos levará a nada. Continuaremos como intelectualóides de esquerda sentados sobre o estereótipo: barbudo, maluco, comedor de criancinha gritando “Fora o Capitalismo”, enquanto o capital continuará mais dentro do que nunca.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

EDITORIAL DA EDIÇÃO 480 DO JORNAL "BRASIL DE FATO" SOBRE A LIGAÇÃO DA REVISTA VEJA COM O CRIME ORGANIZADO


Veja, como o crime organizado faz jornalismo

A Operação Monte Carlo, desencadeada pela Policia Federal (PF) para desbaratar a quadrilha comandada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, já é merecedora de um mérito: publicizou o conluio de setores da grande mídia com o crime organizado para alcançar objetivos econômicos e políticos.
As investigações da PF, com informações documentadas e já amplamente divulgadas, atestam que o bicheiro utilizava a revista Veja, do grupo Abril, para disseminar perseguições políticas, promover suas atividades econômicas ilegais, chantagear, corromper e arregimentar
agentes públicos. A revista se prestava a esse esquema de coação e chantagem do bicheiro.
Em troca, a revista da família Civita recebia do contraventor informações, gravações e materiais – na maioria das vezes obtidas de formas criminosas – que alimentavam as páginas
da publicação, para destilar seu ódio e preconceito contra seus adversários políticos, principalmente os do campo do PT.
A aliança da revista Veja com o crime organizado rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos
– os contratos da construtora Delta com governos estaduais precisam ser profundamente investigados – e se constituíram em instrumento de pressão e amedrontamento de autoridades públicas. Dessa forma, consolidaram um esquema criminoso, milionário, com ramificações privadas e públicas, nas três esferas da República.
O conluio, mais do que reportagens jornalísticas, rendia conspirações políticas e econômicas.
 O acinte à democracia do país alcançou ao nível de planejar a desestabilização
e queda do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. Enquanto Carlinhos Cachoeira e o
senador Demóstenes (ex-Dem) gargalhavam por fogo no país, a revista projetava o senador como o prócer da moralidade pública, com perspectivas de vir a ser candidato à presidência
da República. Era o crime organizado, com a participação do Grupo Abril, tramando desestabilizar governos e tomar conta da máquina estatal.
No entanto, a revista Veja era pequena e insignificante para os objetivos que o conluio se propunha alcançar. Precisava de ajuda. Os telejornais da Rede Globo se prestaram a dar a ajuda de que necessitavam. Com sua peculiar e esculachada crítica, o jornalista Paulo Henrique Amorim sintetiza a mútua ajuda que se estabeleceu: “o Jornal Nacional não tem produção própria. A revista Veja não tem repercussão nacional. O crime organizado se organiza na Veja e se expande no Jornal Nacional”.
Em um jornalismo sem ética, sem compromisso com a verdade e interesses públicos, que se dane a verdade factual. O que interessa, para esse tipo de jornalismo, é a versão dos fatos que atendam aos interesses dos que mantém o monopólio da informação.
 Sempre que é questionada por praticar esse tipo de jornalismo, a mídia se defende afirmando que tem a capacidade de se autorregulamentar. O conluio Veja-crime organizado
sepultou essa tese. Até esse momento impera o silencio da mídia burguesa sobre os vínculos da revista com a organização criminosa do bicheiro. O jornalista Jânio de Freitas, um dos mais renomados colunistas da Folha, fez uma detalhada radiografia da organização montada pelo contraventor e suas extensas ramificações. Não disse uma única palavra das suas ramificações com a mídia. Mais do que escreveu, a sabuja lacuna do seu artigo evidenciou o medo que impera entre o patronato da grande mídia e a capacidade desse lamaçal engolir, inclusive, jornalistas decentes.
Ao pacto de não noticiar a promiscuidade do grupo Abril com o crime organizado juntam-se, agora que a CPMI está instalada, os esforços para evitar que os que se beneficiaram
com a organização criminosa do Carlinhos Cachoeira sejam convocados a dar explicações no Congresso Nacional e para sociedade.
O deputado federal Miro Teixeira (PDT/RJ) articula um pretexto jurídico para impedir a convocação de jornalistas e proprietários das empresas de comunicação envolvidas nas atividades criminosas do bicheiro. Um dos mais altos executivos do grupo Abril já perambulou pelos corredores e gabinetes do Congresso numa tentativa de evitar que seu patrão, Robert Civita, tenha que prestar esclarecimentos na CPMI. A Globo, fato noticiado, enviou um mensageiro para informar (ou seria ameaçar?) o Palácio do Planalto: se o empresário Robert Civita for convocado pela CPMI, os meios de comunicação declaram uma guerra sem limites contra o governo.
É de lamentar que a Rede Globo não tenha a coragem de publicar essa posição política nos editoriais dos seus jornais e divulgá-la em seus telejornais.
Caso os parlamentares da CPMI se rendam às pressões dos grupos empresariais da mídia, estarão sendo coniventes com práticas criminosas e institucionalizado duas categorias de cidadãos nesse país: os que podem ser convocados para depor numa CPMI e os que não devem ser convocados.
Há um enorme volume de informações e provas que atestam que setores da mídia estão envolvidos com atividades de organizações criminosas e que atentaram contra a democracia do nosso país. É inadmissível que os que participaram ativamente na organização criminosa, e dela
se benefi ciaram, não sentem no banco dos réus alegando, unicamente, a condição de serem patrões.
O Congresso Nacional instalou, atendendo os anseios da sociedade, uma CPMI para investigar as atividades do crime organizado com suas ramificações na mídia e nas três esferas
da estrutura do Estado. Os parlamentares que compõe essa CPMI tem a responsabilidade de não frustrar a sociedade, apurar os fatos com profundidade e criar as condições para que seus responsáveis prestem contas à justiça, além de legar ao país uma legislação que, ao menos, iniba
essa prática de jornalismo associado com o crime organizado. A Lei dos Meios de Comunicação é cada vez mais necessária e inadiável.

sábado, 5 de maio de 2012

CARPE DIEM, MAS SEM CAPITALISMO

Às voltas com a questão do Dia dos Trabalhadores, data em que há mais o que protestar e se indignar do que comemorar, constatei que já estamos no quinto mês do corrente ano, aproximando a passos largos de deixar a primeira metade para trás. Todos os anos fazemos os mesmos comentários sobre a velocidade com que o tempo está passando. Nossas vidas vão se esvaindo como areias em ampulhetas e não há nada ou quase nada que possamos fazer, ou não?
 O movimento literário barroco foi o primeiro a tratar de forma mais ostensiva sobre a brevidade da vida. Questão que trouxe um grande conflito para o artista da época. Já que a vida é breve, como deveríamos aproveitá-la? Aproveitando os prazeres mundanos ou estando em comunhão com Deus? Foi um conflito espiritual que atormentou homem barroco e que até hoje não conseguimos resolver. Em seguida, o Arcadismo e o Romantismo também trataram dessa questão. A brevidade da vida é uma questão que sempre foi abordada na literatura. Sendo que do Realismo para cá, essa questão não tem tanta atenção como outrora. Talvez muito disso se deva pela revolução nos meios de produção literários e na ascensão do capitalismo.
O mundo capitalista é tão mais acelerado, que talvez nem o poeta com seu famoso ócio criativo tenha tempo para falar da brevidade do tempo. Sim. O capitalismo acelerou o mundo. Se você acha que sua semana ou seu fim de semana passou rápido, é porque o ritmo desvairado de trabalho imposto pelo capital o faz acumular inúmeras tarefas domésticas ou sociais que fazem qualquer tempo vago parecer uma fração de segundos. O meio de produção capitalista exige esse turbilhão exacerbado de trabalho. Você vale o quanto você trabalha.
Pense bem. Como a semana do trabalhador comum não passará voando com essa rotina: acordar bem cedo, levar em média uma hora no transporte coletivo até o trabalho, trabalhar oito horas, passar mais uma hora de média para voltar já de noite para casa onde ele dormirá cedo para acordar cedo e dar início à sua rotina escravista, com o salário que dá apenas para subsistir? Esse é o capitalismo que te suga, que não te permite dar tempo para você, para sua família. A mídia fala incentivo à leitura, só pode ser piada né. É a mesma mídia que estimula e luta pela a manutenção do modelo capitalista.
Realmente a questão da brevidade da vida é antiga, mais do que o sistema capitalista, porém o mundo atual vive em tempos loucamente acelerados e há pouca coisa que podemos fazer no mundo individualista em que o capital nos jogou. Mas a questão parece clara: ou arrumamos um meio de combater, de mudar o sistema ou a areia de nossas ampulhetas se esvairá cada vez mais rápido. Para ser mais claro, ou acabamos com o capitalismo ou ele acabará conosco.
                                                                                           Nilvio Pinheiro