Às voltas com
a questão do Dia dos Trabalhadores, data em que há mais o que protestar e se
indignar do que comemorar, constatei que já estamos no quinto mês do corrente
ano, aproximando a passos largos de deixar a primeira metade para trás. Todos
os anos fazemos os mesmos comentários sobre a velocidade com que o tempo está
passando. Nossas vidas vão se esvaindo como areias em ampulhetas e não há nada
ou quase nada que possamos fazer, ou não?
O movimento literário barroco foi o primeiro a
tratar de forma mais ostensiva sobre a brevidade da vida. Questão que trouxe um
grande conflito para o artista da época. Já que a vida é breve, como deveríamos
aproveitá-la? Aproveitando os prazeres mundanos ou estando em comunhão com
Deus? Foi um conflito espiritual que atormentou homem barroco e que até hoje
não conseguimos resolver. Em seguida, o Arcadismo e o Romantismo também
trataram dessa questão. A brevidade da vida é uma questão que sempre foi
abordada na literatura. Sendo que do Realismo para cá, essa questão não
tem tanta atenção como outrora. Talvez muito disso se deva pela revolução nos meios
de produção literários e na ascensão do capitalismo.
O mundo
capitalista é tão mais acelerado, que talvez nem o poeta com seu famoso ócio
criativo tenha tempo para falar da brevidade do tempo. Sim. O capitalismo
acelerou o mundo. Se você acha que sua semana ou seu fim de semana passou
rápido, é porque o ritmo desvairado de trabalho imposto pelo capital o faz
acumular inúmeras tarefas domésticas ou sociais que fazem qualquer tempo vago
parecer uma fração de segundos. O meio de produção capitalista exige esse
turbilhão exacerbado de trabalho. Você vale o quanto você trabalha.
Pense bem.
Como a semana do trabalhador comum não passará voando com essa rotina: acordar
bem cedo, levar em média uma hora no transporte coletivo até o trabalho,
trabalhar oito horas, passar mais uma hora de média para voltar já de noite
para casa onde ele dormirá cedo para acordar cedo e dar início à sua rotina
escravista, com o salário que dá apenas para subsistir? Esse é o capitalismo
que te suga, que não te permite dar tempo para você, para sua família. A mídia
fala incentivo à leitura, só pode ser piada né. É a mesma mídia que estimula e
luta pela a manutenção do modelo capitalista.
Realmente a questão da brevidade da vida é antiga, mais do que o sistema capitalista, porém o mundo atual vive em tempos loucamente acelerados e há
pouca coisa que podemos fazer no mundo individualista em que o capital nos
jogou. Mas a questão parece clara: ou arrumamos um meio de combater, de mudar o sistema ou a areia de nossas ampulhetas se esvairá cada vez mais rápido. Para ser
mais claro, ou acabamos com o capitalismo ou ele acabará conosco.
Nilvio Pinheiro
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