"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

sábado, 5 de maio de 2012

CARPE DIEM, MAS SEM CAPITALISMO

Às voltas com a questão do Dia dos Trabalhadores, data em que há mais o que protestar e se indignar do que comemorar, constatei que já estamos no quinto mês do corrente ano, aproximando a passos largos de deixar a primeira metade para trás. Todos os anos fazemos os mesmos comentários sobre a velocidade com que o tempo está passando. Nossas vidas vão se esvaindo como areias em ampulhetas e não há nada ou quase nada que possamos fazer, ou não?
 O movimento literário barroco foi o primeiro a tratar de forma mais ostensiva sobre a brevidade da vida. Questão que trouxe um grande conflito para o artista da época. Já que a vida é breve, como deveríamos aproveitá-la? Aproveitando os prazeres mundanos ou estando em comunhão com Deus? Foi um conflito espiritual que atormentou homem barroco e que até hoje não conseguimos resolver. Em seguida, o Arcadismo e o Romantismo também trataram dessa questão. A brevidade da vida é uma questão que sempre foi abordada na literatura. Sendo que do Realismo para cá, essa questão não tem tanta atenção como outrora. Talvez muito disso se deva pela revolução nos meios de produção literários e na ascensão do capitalismo.
O mundo capitalista é tão mais acelerado, que talvez nem o poeta com seu famoso ócio criativo tenha tempo para falar da brevidade do tempo. Sim. O capitalismo acelerou o mundo. Se você acha que sua semana ou seu fim de semana passou rápido, é porque o ritmo desvairado de trabalho imposto pelo capital o faz acumular inúmeras tarefas domésticas ou sociais que fazem qualquer tempo vago parecer uma fração de segundos. O meio de produção capitalista exige esse turbilhão exacerbado de trabalho. Você vale o quanto você trabalha.
Pense bem. Como a semana do trabalhador comum não passará voando com essa rotina: acordar bem cedo, levar em média uma hora no transporte coletivo até o trabalho, trabalhar oito horas, passar mais uma hora de média para voltar já de noite para casa onde ele dormirá cedo para acordar cedo e dar início à sua rotina escravista, com o salário que dá apenas para subsistir? Esse é o capitalismo que te suga, que não te permite dar tempo para você, para sua família. A mídia fala incentivo à leitura, só pode ser piada né. É a mesma mídia que estimula e luta pela a manutenção do modelo capitalista.
Realmente a questão da brevidade da vida é antiga, mais do que o sistema capitalista, porém o mundo atual vive em tempos loucamente acelerados e há pouca coisa que podemos fazer no mundo individualista em que o capital nos jogou. Mas a questão parece clara: ou arrumamos um meio de combater, de mudar o sistema ou a areia de nossas ampulhetas se esvairá cada vez mais rápido. Para ser mais claro, ou acabamos com o capitalismo ou ele acabará conosco.
                                                                                           Nilvio Pinheiro
 

 

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