"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

sábado, 26 de maio de 2012

INTELECTUALOIDISMO DE ESQUERDA



            O trabalhador acorda cedo. Sai para ir ao trabalho. Para numa banca e se depara com várias opções de jornais. Pode comprar o “Extra”, “Meia Hora”, “Expresso”, “O Dia”. Se for um pouco mais requintado, pode comprar “O Globo”. Ou seja, a mídia capitalista está em todas as classes. Jornais impressos, rádios, telejornais, eles também estão em todos os tipos de mídias.
Alguns pseudoespecialistas falam em crise do Capital. Como pode estar em crise o sistema que controla mente das pessoas? Como pode estar em crise o sistema que dita o que os indivíduos vão ter vontade de comprar? Ou em quem vão votar? Como pode estar em crise um sistema que controla os próprios meios para sair da crise?
Não. O capitalismo não está em crise. Pode ter sim, sentido um abalo. Mas tal qual um vírus, ele sofre uma mutação que lhe garantirá uma boa sobrevida. Esta mutação poderia ser evitada e combatida se tivéssemos um movimento de esquerda coeso e realmente alinhado com o povo. Os esparsos golpes que os movimentos de esquerda brasileiros conseguem aplicar à elite burguesa funcionam como antibióticos mal utilizados que só fazem com que o vírus capitalista se transforme e se fortaleça. Vemos discussões fervorosas em defesas de vários pontos de vista dos mais variados militantes esquerdistas.
Alguns mais radicais, outros menos. Alguns grandes devoradores de Marx, outros menos embasados, mas críticos e conhecedores o suficiente para debater. Enquanto os ricos debates recheados de teses acadêmicas revolucionárias se esquentam, trabalhadores de todo Brasil continuam se espremendo em coletivos hiperlotados. Crianças e adolescentes continuam tendo uma educação precária com professores mal formados, mal pagos e mal aparelhados. Homens, mulheres, crianças e idosos sofrem em filas de hospitais para serem atendidos por médicos (alguns incompetentes ou negligentes) com poucos e débeis recursos. Policias criminosos continuam desrespeitando e até matando negros e pobres em favelas e comunidades pobres. Trabalhadores rurais são escravizados e mortos no campo. Ou seja, enquanto a esquerda debate sobre o sexo dos anjos marxistas, o Capital continua com sua mão forte e pesada chicoteando o lombo do povo brasileiro.
É fato. A esquerda, movimentos de motivação socialista de um forma geral não falam a língua do povo. Não dialogam com o povo. Não atingem grandes massas. Não há um projeto para a esquerda se fazer ouvir. Pensadores, políticos, militantes, esquerdistas de uma forma geral são taxados como loucos porque o que falam, o povo não entende. Entraram num estereótipo que foi criado para eles e de lá não saem. O pensamento socialista parece se cristalizar, se engessar. Fala-se em luta contra o capital, mas essa luta está perdida há muito tempo, porque ninguém parece fazer nada realmente consistente para tentar revertê-la.
Perguntar não ofende: qual jornal impresso, revista periódico, enfim, qual publicação de ótica esquerdista que dialoga com as massas? Temos algumas publicações com esse tipo de pensamento, mas dialogam mais com iniciados, ou seja, uma espécie de elite esquerdista. Não atingem o povo. Qual programa jornalístico independente de televisão tem um ponto de vista de motivação socialista? Como vencer quem domina o pensamento do povo se não se presta a realmente dialogar com este?
Esta distância em relação à massa popular e esse academicismo esquerdista não nos levará a nada. Continuaremos como intelectualóides de esquerda sentados sobre o estereótipo: barbudo, maluco, comedor de criancinha gritando “Fora o Capitalismo”, enquanto o capital continuará mais dentro do que nunca.

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