Veja, como o crime organizado faz jornalismo
A Operação Monte Carlo, desencadeada pela Policia
Federal (PF) para desbaratar a quadrilha comandada pelo bicheiro Carlinhos
Cachoeira, já é merecedora de um mérito: publicizou o conluio de setores da
grande mídia com o crime organizado para alcançar objetivos econômicos e
políticos.
As investigações da PF, com informações documentadas
e já amplamente divulgadas, atestam que o bicheiro utilizava a revista Veja,
do grupo Abril, para disseminar perseguições políticas, promover suas atividades econômicas ilegais, chantagear, corromper
e arregimentar
agentes públicos. A revista se prestava a esse esquema de coação e
chantagem do bicheiro.
Em troca, a revista da família Civita recebia do
contraventor informações, gravações e materiais – na maioria das vezes obtidas
de formas criminosas – que alimentavam as páginas
da publicação, para destilar seu ódio e preconceito contra seus
adversários políticos, principalmente os do campo do PT.
A aliança da revista Veja com o crime organizado
rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização
criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos
– os contratos da construtora Delta com governos estaduais precisam ser
profundamente investigados – e se constituíram em instrumento de pressão e
amedrontamento de autoridades públicas. Dessa forma, consolidaram um esquema
criminoso, milionário, com ramificações privadas e públicas, nas três esferas
da República.
O conluio, mais do que reportagens jornalísticas,
rendia conspirações políticas e econômicas.
O acinte à
democracia do país alcançou ao nível de planejar a desestabilização
e queda do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. Enquanto
Carlinhos Cachoeira e o
senador Demóstenes (ex-Dem) gargalhavam por fogo no país, a revista projetava
o senador como o prócer da moralidade pública, com perspectivas de vir a ser
candidato à presidência
da República. Era o crime organizado, com a participação do Grupo Abril,
tramando desestabilizar governos e tomar conta da máquina estatal.
No entanto, a revista Veja era pequena e
insignificante para os objetivos que o conluio se propunha alcançar. Precisava
de ajuda. Os telejornais da Rede Globo se prestaram a dar a ajuda de que
necessitavam. Com sua peculiar e esculachada crítica, o jornalista Paulo
Henrique Amorim sintetiza a mútua ajuda que se estabeleceu: “o Jornal Nacional
não tem produção própria. A revista Veja não tem repercussão nacional. O
crime organizado se organiza na Veja e se expande no Jornal Nacional”.
Em um jornalismo sem ética, sem compromisso com a
verdade e interesses públicos, que se dane a verdade factual. O que interessa,
para esse tipo de jornalismo, é a versão dos fatos que atendam aos interesses dos
que mantém o monopólio da informação.
Sempre que
é questionada por praticar esse tipo de jornalismo, a mídia se defende afirmando
que tem a capacidade de se autorregulamentar. O conluio Veja-crime
organizado
sepultou essa tese. Até esse momento impera o silencio da mídia
burguesa sobre os vínculos da revista com a organização criminosa do bicheiro. O
jornalista Jânio de Freitas, um dos mais renomados colunistas da Folha, fez uma
detalhada radiografia da organização montada pelo contraventor e suas extensas
ramificações. Não disse uma única palavra das suas ramificações com a mídia.
Mais do que escreveu, a sabuja lacuna do seu artigo evidenciou o medo que
impera entre o patronato da grande mídia e a capacidade desse lamaçal engolir,
inclusive, jornalistas decentes.
Ao pacto de não noticiar a promiscuidade do grupo
Abril com o crime organizado juntam-se, agora que a CPMI está instalada, os
esforços para evitar que os que se beneficiaram
com a organização criminosa do Carlinhos Cachoeira sejam convocados a dar
explicações no Congresso Nacional e para sociedade.
O deputado federal Miro Teixeira (PDT/RJ)
articula um pretexto jurídico para impedir a convocação de jornalistas e
proprietários das empresas de comunicação envolvidas nas atividades criminosas
do bicheiro. Um dos mais altos executivos do grupo Abril já perambulou pelos
corredores e gabinetes do Congresso numa tentativa de evitar que seu patrão, Robert
Civita, tenha que prestar esclarecimentos na CPMI. A Globo, fato noticiado,
enviou um mensageiro para informar (ou seria ameaçar?) o Palácio do Planalto:
se o empresário Robert Civita for convocado pela CPMI, os meios de comunicação
declaram uma guerra sem limites contra o governo.
É de lamentar que a Rede Globo não tenha a
coragem de publicar essa posição política nos editoriais dos seus jornais e
divulgá-la em seus telejornais.
Caso os parlamentares da CPMI se rendam às
pressões dos grupos empresariais da mídia, estarão sendo coniventes com
práticas criminosas e institucionalizado duas categorias de cidadãos nesse
país: os que podem ser convocados para depor numa CPMI e os que não devem ser convocados.
Há um enorme volume de informações e provas que
atestam que setores da mídia estão envolvidos com atividades de organizações
criminosas e que atentaram contra a democracia do nosso país. É inadmissível que
os que participaram ativamente na organização criminosa, e dela
se benefi ciaram, não sentem no banco dos réus alegando, unicamente, a
condição de serem patrões.
O Congresso Nacional instalou, atendendo os
anseios da sociedade, uma CPMI para investigar as atividades do crime
organizado com suas ramificações na mídia e nas três esferas
da estrutura do Estado. Os parlamentares que compõe essa CPMI tem a
responsabilidade de não frustrar a sociedade, apurar os fatos com profundidade
e criar as condições para que seus responsáveis prestem contas à justiça, além
de legar ao país uma legislação que, ao menos, iniba
essa prática de jornalismo associado com o crime organizado. A Lei dos
Meios de Comunicação é cada vez mais necessária e inadiável.
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