"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Namoro, de Viriato da Cruz (poeta angolano)

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do loge
seus dentes... - marfim...
          Mandei-lhe aessa carta
          e ela dise não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho topografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro - NÃO
          E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
          E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que seu pé deixou
para que fizesse um feitiço sexo e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
          E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
peguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do Largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamin?"
E perdido me deram no morro do Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu casoàs moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Ai Benjamin!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Viriato da Cruz

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