"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

domingo, 22 de julho de 2012

As letras das músicas-crônicas-contos da prosa musical de Rodrigo Amarante


As letras das músicas-crônicas-contos da prosa musical de Rodrigo Amarante
            Os dois últimos livros de Chico Buarque de Holanda,”Budapeste” e “Leite Derramado”, parecem consolidar a carreira de escritor do já consagrado cantor e compositor. Chico que já enfrentou muitas críticas e desconfianças no campo literário, na verdade, já traz a veia de romancista nas letras de suas canções. Nelas podemos ver notoriamente uma literariedade, uma prosa poética, a construção de personagens fascinantes como Geni, por exemplo. Algo semelhante podemos ver nas letras das músicas de Rodrigo Amarante, compositor e vocalista dos Los Hermanos.
            É claro que não é minha intenção apontar um romancista embrionário em Amarante, mas sim destacar uma característica interessante de suas letras. Suas canções parecem ter uma certa roupagem de prosa, como uma crônica. É o caso de “Último Romance” presente no álbum “Ventura”. A letra fala de um casal possivelmente de idade bem madura que inicia um romance, daí o título, por ser talvez o último. A construção do personagem responsável pelo “eu poético” por trás letra, nos sugere um sujeito que o tempo e talvez até possíveis relacionamentos fracassados o deixaram sisudo, a tal ponto de o descobrimento de um novo amor mudar seu comportamento a ponto de até quem o vir “lendo o jornal na fila do pão” saberá que ele a encontrou. E este possível “Último Romance” traz as complicações e os “clichês” inerentes a esta situação. Tudo retratado na letra da canção de forma bastante sugestiva e poética.
            Outra canção que traz um certo perfil de narração e ainda mais sugestiva é “Do Sétimo Andar”, onde o eu lírico-narrador fala de uma pessoa que ele teve de deixar em um lugar que pode ser interpretado como uma espécie clínica de recuperação como podemos ver no trecho “E foi difícil ter que te levar àquele lugar...Como é que hoje se diz? ...você não quis ficar. Os poucos que viram você aqui disseram que mal você não faz.”
            Na mesma linha temos “A Flor”, do segundo álbum, que traz o eu poético-narrador contando ter dado uma flor a uma pessoa que “não sei por que achou ser de um outro rapaz”. E, no fim da canção, surge essa pessoa como interlocutora dizendo que a tal flor “deu alguém pra amar”. Esse diálogo reforça o ar de prosa dentro da música.
            E ainda temos a divertida “Paquetá”, do último trabalho da banda “4”, que traz um eu lírico cansado de sucessivas negativas diante de possíveis tentativas de reatar um relacionamento amoroso que ele mesmo contribuiu para que terminasse (“do amor amuleto o que eu fiz? deixei por aí...”) e pedindo por um “quem sabe um talvez ou um sim eu mereça enfim.”
            Todas essas letras trazem um, aos meus humildes olhos, verniz de crônica ou até mesmo um conto literário. Assim como em crônicas, suas canções trazem histórias carregadas do cotidiano como em “Deixa o Verão”, sempre de forma inteligente e sugestiva, apostando na perspicácia de seu público ouvinte, ou, por que não, leitor.

Nilvio P. Pinheiro

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