As
letras das músicas-crônicas-contos da prosa musical de Rodrigo Amarante
Os
dois últimos livros de Chico Buarque de Holanda,”Budapeste” e “Leite Derramado”,
parecem consolidar a carreira de escritor do já consagrado cantor e compositor.
Chico que já enfrentou muitas críticas e desconfianças no campo literário, na
verdade, já traz a veia de romancista nas letras de suas canções. Nelas podemos
ver notoriamente uma literariedade, uma prosa poética, a construção de
personagens fascinantes como Geni, por exemplo. Algo semelhante podemos ver nas
letras das músicas de Rodrigo Amarante, compositor e vocalista dos Los Hermanos.
É
claro que não é minha intenção apontar um romancista embrionário em Amarante,
mas sim destacar uma característica interessante de suas letras. Suas canções
parecem ter uma certa roupagem de prosa, como uma crônica. É o caso de “Último
Romance” presente no álbum “Ventura”. A letra fala de um casal possivelmente de
idade bem madura que inicia um romance, daí o título, por ser talvez o último.
A construção do personagem responsável pelo “eu poético” por trás letra, nos
sugere um sujeito que o tempo e talvez até possíveis relacionamentos fracassados
o deixaram sisudo, a tal ponto de o descobrimento de um novo amor mudar seu
comportamento a ponto de até quem o vir “lendo o jornal na fila do pão” saberá
que ele a encontrou. E este possível “Último Romance” traz as complicações e os
“clichês” inerentes a esta situação. Tudo retratado na letra da canção de forma
bastante sugestiva e poética.
Outra canção que traz um
certo perfil de narração e ainda mais sugestiva é “Do Sétimo Andar”, onde o eu
lírico-narrador fala de uma pessoa que ele teve de deixar em um lugar que pode
ser interpretado como uma espécie clínica de recuperação como podemos ver no
trecho “E foi difícil ter que te levar àquele lugar...Como é que hoje se diz?
...você não quis ficar. Os poucos que viram você aqui disseram que mal você não
faz.”
Na mesma linha temos “A
Flor”, do segundo álbum, que traz o eu poético-narrador contando ter dado uma
flor a uma pessoa que “não sei por que achou ser de um outro rapaz”. E, no fim
da canção, surge essa pessoa como interlocutora dizendo que a tal flor “deu
alguém pra amar”. Esse diálogo reforça o ar de prosa dentro da música.
E ainda temos a divertida “Paquetá”,
do último trabalho da banda “4”, que traz um eu lírico cansado de sucessivas
negativas diante de possíveis tentativas de reatar um relacionamento amoroso
que ele mesmo contribuiu para que terminasse (“do amor amuleto o que eu fiz? deixei
por aí...”) e pedindo por um “quem sabe um talvez ou um sim eu mereça enfim.”
Todas essas letras trazem um, aos
meus humildes olhos, verniz de crônica ou até mesmo um conto literário. Assim
como em crônicas, suas canções trazem histórias carregadas do cotidiano como em
“Deixa o Verão”, sempre de forma inteligente e sugestiva, apostando na perspicácia
de seu público ouvinte, ou, por que não, leitor.
Nilvio P. Pinheiro
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