É
fato que o brasileiro ainda carrega um certo preconceito quanto ao cinema
nacional. Mesmo com a considerável melhora de nossas produções, ainda vemos o
público torcer o nariz para a maior parte da nossa produção. Um estigma que
muitas vezes nossos filmes carregam é o de ter palavrões e nudez em demasia de
forma injustificada. Algo incoerente com o momento do cinema brasileiro atual
por se remeter a uma época onde nossos roteiros não eram de grande qualidade.
Um
espectador com um olhar pouco atento pode incorrer no erro de querer jogar o
mesmo estigma sobre o excelente e premiado filme de Cláudio Assis, Febre do
Rato. O longa que é o fechamento de uma trilogia que se iniciou com o visceral
Amarelo Manga, e teve sequência com Baixio das Bestas, tem palavrões e nudez
sem economia, mas de forma alguma esses elementos são gratuitos. Primeiro por
serem coerentes com a trilogia do diretor nordestino. Assim como em seus dois
filmes predecessores, no terceiro o diretor abusa do seu estilo de incomodar,
de desagradar, ou até mesmo (no caso de pessoas mais sensíveis) agredir. Parece
pouco provável que alguém assista Febre do Rato e saia indiferente ao que viu.
Ou embarca na viagem e no estilo contundente do diretor ou sairá bastante
insatisfeito (ou até mesmo antes do filme acabar, fato que observei quando
assisti).
Na
verdade, antes de agredir ou desagradar o público, a intenção de Cláudio Assis
é impactar e gerar uma reflexão. Afinal de contas, por que a arte, o belo, não
podem também repousar no bizarro, no grotesco?
Outro
elemento do filme que também faz uso dos palavrões e da nudez é a poesia que o
filme carrega. O filme é bastante poético, mas novamente retornamos à reflexão
que pode ser gerada por meio do filme. A poesia só está no belo tradicionalmente
padronizado? O filme nos mostra que não. Que a poesia pode sair dos cenários
pobres e cotidianos de Recife. Pode sair da ebulição sexual que o filme mostra.
A poesia salta da vociferação libertária e anárquica do poeta Zizo, personagem
interpretado de forma magistral por Irandhir Santos. É desse personagem que
temos não só um discurso poético como um discurso social contra a desigualdade,
outra marca da filmografia do cineasta nordestino.
Esse
ar poético também se deve a uma notória influência do movimento Mangue Beat. Tanto
na trilha sonora como nos versos proferidos por Zizo pode-se notar a marca do
movimento contracultural pernambucano que teve como um dos expoentes o cantor
Chico Science . É de um dos versos desse brilhante e finado cantor pernambucano
que temos o que muito bem poderia ser um dos lemas de Febre do Rato: "Que eu desorganizando posso me
organizar".
Nilvio P. Pinheiro

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