"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O realismo cru, agressivo e poético de Cláudio Assis



                É fato que o brasileiro ainda carrega um certo preconceito quanto ao cinema nacional. Mesmo com a considerável melhora de nossas produções, ainda vemos o público torcer o nariz para a maior parte da nossa produção. Um estigma que muitas vezes nossos filmes carregam é o de ter palavrões e nudez em demasia de forma injustificada. Algo incoerente com o momento do cinema brasileiro atual por se remeter a uma época onde nossos roteiros não eram de grande qualidade.
                Um espectador com um olhar pouco atento pode incorrer no erro de querer jogar o mesmo estigma sobre o excelente e premiado filme de Cláudio Assis, Febre do Rato. O longa que é o fechamento de uma trilogia que se iniciou com o visceral Amarelo Manga, e teve sequência com Baixio das Bestas, tem palavrões e nudez sem economia, mas de forma alguma esses elementos são gratuitos. Primeiro por serem coerentes com a trilogia do diretor nordestino. Assim como em seus dois filmes predecessores, no terceiro o diretor abusa do seu estilo de incomodar, de desagradar, ou até mesmo (no caso de pessoas mais sensíveis) agredir. Parece pouco provável que alguém assista Febre do Rato e saia indiferente ao que viu. Ou embarca na viagem e no estilo contundente do diretor ou sairá bastante insatisfeito (ou até mesmo antes do filme acabar, fato que observei quando assisti).
                Na verdade, antes de agredir ou desagradar o público, a intenção de Cláudio Assis é impactar e gerar uma reflexão. Afinal de contas, por que a arte, o belo, não podem também repousar no bizarro, no grotesco?
                Outro elemento do filme que também faz uso dos palavrões e da nudez é a poesia que o filme carrega. O filme é bastante poético, mas novamente retornamos à reflexão que pode ser gerada por meio do filme. A poesia só está no belo tradicionalmente padronizado? O filme nos mostra que não. Que a poesia pode sair dos cenários pobres e cotidianos de Recife. Pode sair da ebulição sexual que o filme mostra. A poesia salta da vociferação libertária e anárquica do poeta Zizo, personagem interpretado de forma magistral por Irandhir Santos. É desse personagem que temos não só um discurso poético como um discurso social contra a desigualdade, outra marca da filmografia do cineasta nordestino.
                Esse ar poético também se deve a uma notória influência do movimento Mangue Beat. Tanto na trilha sonora como nos versos proferidos por Zizo pode-se notar a marca do movimento contracultural pernambucano que teve como um dos expoentes o cantor Chico Science . É de um dos versos desse brilhante e finado cantor pernambucano que temos o que muito bem poderia ser um dos lemas de Febre do Rato: "Que eu desorganizando posso me organizar".

 Nilvio P. Pinheiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário