"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Batman, Bane e a falsa esperança do capitalismo




Batman, Bane e a falsa esperança do capitalismo
                Saí do cinema depois de assistir a “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, último filme da trilogia de Batman do diretor inglês Cristopher Nolan, com a sensação de alma lavada. Isso se deve ao fato de eu ser um ex-amante de quadrinhos de super-heróis como Batman (embora o meu preferido fosse um certo aracnídeo) e ver que é possível ter um filme do gênero que alie diversão, respeito à história do personagem e ainda conteúdo para alguma reflexão.
                Nolan já tinha feito um filme de qualidade indiscutível, sucesso de público e crítica, com o segundo da trilogia e agora, com o terceiro (que não chega a ser melhor do que o anterior), ele fecha com chave de ouro a sua série de três filmes do herói de Gotham City. Ele alia elementos comerciais e autorais e entrega um filme de super-herói com conteúdo, um filme que também faz pensar, provando que é possível fazer um cinema comercial de qualidade.
                Logo de cara percebemos que o diretor corrigiu um erro grotesco do equivocado filme de Joel Shumacher, “Batman e Robin”. O mau aproveitamento de um vilão importante na história de Batman, Bane. No (péssimo) longa de 1997, o vilão surge como um capanga imbecil interpretado por Arnold Shwarzenegger. Já no atual filme de Nolan, Bane, interpretado por Tom Hardy, surge mais próximo de sua história nos quadrinhos; um vilão inteligente, poderoso e temido. Outros personagens também são muito bem aproveitados, como a Mulher Gato, bem interpretada por Anne Hathaway. Além de referências a outros personagens como o Robin.Tudo bem feito e encaixado no roteiro.
                A exemplo do filme anterior, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, este terceiro longa traz algumas reflexões interessantes. Em um determinado momento do filme, após derrotar Batman em uma luta corporal, Bane relata para o herói como ele irá castigar a população de Gotham City. Para isso ele diz que lhes dará esperança, ou melhor, uma falsa esperança, um falso sentimento de liberdade, para depois acabar com toda a cidade. Bane age como o sistema que controla o mundo atual faz muito bem. Dá falsas esperanças para o povo, falsos sentimentos de liberdade, para usar e abusar dele. Bane faz uso, inteligentemente, de uma estratégia que o sistema capitalista lança mão de forma bastante eficaz. Ilude para castigar, para tirar proveito, sem que se perceba.
                Só na ficção temos um milionário abnegado com Bruce Wayne, que abre mão de sua vida, de sua luz, para tirar os outros menos favorecidos das trevas. Enquanto homens a serviço do sistema que usa estratégia semelhante à de Bane,temos aos montes do lado de cá da tela. Desde mega empresários tidos como grandes empreendedores que na verdade enriqueceram às custas do suor e do dinheiro alheios, até apresentadores de televisão bonzinhos que se sensibilizam facilmente com o problemas das pessoas que são utilizadas como fetiches em seus programas, passando pelos políticos corruptos e donos de igrejas que lavam dinheiro sujo na televisão.
                Dizem que Batman é um dos heróis mais realistas por não ter super poderes, mas na verdade um empresário milionário que se sacrifica pelo coletivo é tão irreal quanto um Hulk. Na vida real, homens com a filosofia de Bane são muito mais comuns.

Nilvio P. Pinheiro

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