2/17/2010
O país das calças beges
O céu azul é lindo
Mas no xis te deprime (Detentos do rap)
Mas no xis te deprime (Detentos do rap)
O sol é pá e tchum, parece que vai queimar minha retina.
Faz tempo que não faço aquele ato pau no gato.
Dei o saco com a camisa, escova de dente, par de chinelos e o velho short pra um parceiro que sempre teve menos que isso.
Na rua é tanta pagação e na prisão agente aprende em primeiro lugar a humildade.
Tem
que dividir pra dormir, pra usar o banheiro, pra comer, pra saber sair
na hora certa e ficar na hora que também estiver no pá.
Não
vou querer nenhuma lembrança desse passado recente, agora tenho á minha
frente mais futuro, pelo menos assim espero, acho que já sai
definitivamente da prisão e to longe do cemitério.
Tenho liberdade para ir aonde quiser, agora finalmente a tenho.
To com o pensamento na milisquência da sequência do ato antiviolência, num vou mais seguir para matar.
Na
primeira noite fui humilhado, dormi no boi, mas o cara que fez a
brincadeira, nunca mais vai fazer com ninguém, tirar sarro da cara de
ladrão não tem perdão.
Entrei por causa de um assalto e me formei em homicídio, isso que é faculdade.
Vários
buchichos durante o dia, várias mulas durante a noite, neguinho perde a
linha rapidinho na brincadeira de cadeia, ai é só lamento, agente cobre
na manta e dá um pau geral, pra aprender a entender as risada do
parceiro.
Agora é outra fita, outra vida. Daqui pra frente é só progresso.
Não tenho o dinheiro da condução e resolvo pedir uma carona.
Talvez
pelo rosto desgastado pelo tempo de cela, talvez pelas roupas velhas,
encardidas, o motorista não se comove e me chama de vagabundo.
Vagabundo
não, eu to no pá de correr pelo certo, mas também num vou aguentar
tiração de ninguém, muito menos de Zé povinho que puxa saco de dono de
empresa, faz seguinte enfia esse buzão no seu rabo, vou na caminhada pra
num dar uma de louco logo agora.
Foi
um julgamento quase tão rápido como todos são, um juiz que ria da minha
cara, ria como se soubesse como é o mundão lá fora, longe de ajuda de
pai, longe de facilidade pra estudar.
Num guento mais andar, pego o próximo buzão, deixo passar mais uns três pontos e então peço para passar por baixo.
O cobrador emenda um palavrão.
Eu, um ex 157 abaixo a cabeça e fico com a vergonha e com a liberdade.
Tudo
está mudado, as coisas mudaram muito, não conheço as ruas, não conheço
as lojas, nem os novos modelos de carros, os panos e as cores dos
bagulhos também tão a milhão, e até o jeito das pessoas mudou, ninguém
nem olha mais na bolinha do olho do outro.
As músicas... o que é mais estranho são as música, bagulho louco.
Estou pálido, branquelo mesmo de tanto não ver o sol, tiro
a camisa para pegar um pouco, muitos que passam pela calçada me olham,
talvez seja a pele quase verde, talvez as tatuagens adquiridas com os
anos de ósseo, talvez a cara de monstro que não dá pra esconder.
Tenho
que vê-la, tenho que chegar em casa e ver minha pequena, faz tanto
tempo que parou de me visitar, talvez tenha ficado doente, talvez
voltado a estudar, sei que foi difícil de uns anos pra cá.
Mas to ligado que ela me ama, coração de vagabundo bate na sola do pé, e dá pra sentir a quando o bagulho é de verdade.
Telefone
não atende mais, talvez tenham cortado, sei que ela batalha muito para
manter a casa, eu sei tudo isso, mas tenho um nó na garganta, uma
saudade doída, e to a fim de perdoar ela, ficar visitado cadeeiro é
barra, os pé de urso examina, humilha os familiá.
Chego
em casa, finalmente, parece que foi ontem que sai daqui, pouco mudou na
favela, até os barraco num melhorou nada, a porta do meu barraco me dá
uma vontade de nunca mais sair dele, aquela saudade do café com leite,
pão esquentado no final da tarde, jogo da seleção, uma cerva com os
parceiro, e o no quintalzinho dos fundos um churrasco pra galera,
comemorar minha saída, minha liberdade.
Na
viela alguns abraços, saudades, demonstrações de surpresa, ninguém
imaginava que eu ia voltar. Que um dia eu iria voltar para lá, confesso
que percebi que teve gente que até se espantou, tipo me esqueceu, falou
que tava surpreso, mas na verdade tava com vergonha de nem se lembrar de
mim, tudo bem, todo mundo ta no seu corre, ninguém deve ter tempo de
lembrar assim de correria.
Gente que pensou que morri, gente que pensou que fugi e sai por ai nesse mundão.
Dentro
de alguns dias serei um incomodo, serei um a mais, um cara que serra
cigarro, que pede um copo de pinga, que vai na casa do parceiro que está
melhor e pede uma pistola pra fazer um trampo.
Dentro
de alguns dias eu vou ser a porta fechada na cara, a campanhia não
atendida, a conversa não continuada, o sussurro – ta vendo esse ai? É um
bosta, um nada.
Bato no barraco,
não tenho chave, não tenho como entrar, bato e bato com mais força, uma
vizinha sai e pergunta o que estou procurando.
Digo que minha esposa, a vizinha abaixa a cabeça e fala baixinho que ninguém mora mais ali, que o barraco ta pra vender.
Não
acredito e quero ouvir toda a história, ela não sabe explicar, diz que a
mulher saiu com um menino e com um taxista, eu to com um nó na
garganta, to respirando alto, suando, ela diz que a mulher estava a
algum tempo namorando, que ela um dia chegou pegou as poucas coisas,
deixou a venda do barraco sobre sua responsabilidade e se foi junto com
um homem.
Num deixou telefone, nem nada?
Nada!
Liga de vez em quando pra ver se vendi o barraco, deixou só um número
da conta pra depositar o dinheiro do barraco, me prometeu uma parte se
eu vendesse.
Abaixo a cabeça, ela agora pesa uma tonelada. Minha casa caiu, meu mundo acabou. O que vou fazer nessa longa estranha caminhada.
Ando
pelas vielas, pelas ruas principais, e não acho nenhuma alfaiataria,
foi o que aprendi na cadeia, ser um alfaiate, logo eu né? Que nunca me
consertei na vida.
Eu sou um homem livre, mas sem dinheiro no bolso isso não importa muito eu sei.
O
apresentador berra que somos animais, não sabem que em muitas cadeias
desse país, os animais como eu doam um dia de sua comida por semana pras
pessoas que precisam, os famíliá vai lá buscar, quem desses aí que vive
falando doa um dia da semana de comida pra alguém.
Eu
vejo que esses apresenta-a-dor de merda todos pedem pra prender as
crianças, antes de eu ir pra cadeia, quando uma criança colava agente
ria, falava com ela, agora quando vem chegando uma criança, parece que
ela vai pedir algo, agora eu vejo as pessoas com medo, segurando a
bolsa, eu não sou mais vilão, eu não causo mais pavor do que um menino
de 12.
Eu to ficando chapado, to
com fome, mas reflito. As crianças não sorriem mais na rua, eu prevejo
mais gente portando pistola, colete, carro blindado, cada um correndo
pelo seu.
Vejo um cara empurrando um cara sozinho, ninguém ajuda, ninguém cola, eu num to entendendo nada.
Tudo
mudou, tudo ta mudado, as coisas envelheceram, perderam a beleza, as
pessoas ficaram frias, olhos para baixo, cabeças para o chão, um dia eu
ouvi alguém dizer um bom dia para um jornaleiro, quase chorei.
Eu
to com fome, tento ligar de novo, o telefone não atende, vou dar um
role no centro, acabei de encontrar um parceiro, ele disse que não tem
como somar comigo, disse que ta cheio de gente dando multa, na minha
época ajudar os outros não era multa, aqui na quebrada eu não arrumo
nada, não posso mexer em nada, se não vou ser cobrado, tem lei por aqui
agora, é o que me disseram.
Eu to livre, eu tenho minha liberdade, vou chegar no centro, talvez eu a perca.
Eu fiquei preso, pode crê, talvez eu volte para lá, porque aqui fora num tem ninguém solto mesmo.
Ferréz
É datilógrafo e está preso em regime semi aberto na periferia de São Paulo há 33 anos.
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