"A Arte é a dimensão anárquica da matéria onírica"
Gláuber Rocha

domingo, 11 de novembro de 2012

ARGO, A GRATA SURPRESA DE BEN AFFLEC


     Quem assistiu a filmes como “O Pagamento”, “Sobrevivendo ao Natal”, “Demolidor – O Homem sem medo”, entre outros filmes medíocres estrelados por Ben Afflec, não deve ter pensado muito diferente de mim, que o ator californiano é um merda!
     Pensei isso dele por um bom tempo, e mesmo quando ele começou a ganhar boas críticas na direção de “Medo da Verdade”, ainda me mantive cético quanto a seu talento. Porém confesso que esse ceticismo se viu forçado a ruir hoje, após assistir “Argo”, filme em que Ben Afflec dirige e atua.
     Ben Afflec redime-se e também joga um pouco de alento no cinemão americano que produz muito mais lixo do que filmes apreciáveis. “Argo” é um filme político de qualidade indiscutível. A história se passa em 1979, após a invasão da embaixada americana no Irã por manifestantes que pediam a deportação do ex-governante iraniano, Xá, um ditador iraniano que chegou ao poder através de um golpe de estado chancelado pelos EUA por meio da CIA e foi responsável por um período de miséria do povo iraniano. Xá foi deposto após a Revolução Iraniana e conseguiu asilo na sua nação-madrinha,  os EUA. Diante disso, militantes revolucionários tomaram a embaixada americana em Teerã e fizeram reféns os funcionários que lá se encontravam. O objetivo era forçar os estadunidenses a libertar o ex-ditador.
     Em meio à confusão, seis reféns escaparam e foram parar na casa do embaixador do Canadá no Irã. Para libertá-los antes que os iranianos dessem por falta, o agente da CIA, Tony Mendes, interpretado de forma sóbria e competente por Afflec, tem uma ideia absurda: tirá-los de lá através de uma equipe falsa de produção de um filme falso fruto de um roteiro tosco de ficção científica. A ideia é surreal, mas é verídica.
     A partir daí, a trama se desenvolve em um filme tenso, com doses de humor que suavizam a tensão psicológica carregada no filme. Outro ponto para Ben Afflec e para o roteiro é fugir da patriotada tradicional estadunidense. O filme não se furta em deixar no ar críticas à CIA e ao governo.
     Em “Argo”, Ben Afflec mostra amadurecimento como ator e, principalmente, como diretor. Os créditos finais mostram ainda o ótimo trabalho de reconstituição histórica do filme. E traz ainda uma fala do Jimmy Carter falando da missão hipersigilosa que contribuiu para a “integridade” do país. Integridade estadunidense, talvez seja uma espécie de última piada do filme.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

VIVA A TRISTEZA



Não, não vou falar mal da tristeza, não seria justo. Eu devo a ela minhas profundidades, minha imaginação, minha volta por cima. Graças a ela vislumbrei coisas importantes para mim. Músicas que várias pessoas conhecem. Cartas, textos, coisas que ninguém vai ler, mas que me serviram em algum momento. Mergulhei no pôr-do-sol, uivei prá lua, encostei a cabeça na janela naquele dia de chuva e ouvi a música mais linda do mundo.

Num dia triste, me sentindo fora do planeta, fui ao cinema e vi "Blade Runner".
Num dia soturno fui caminhar na praia e vi a onda mais azul, o céu mais infinito e o horizonte mais perfeito.Num dia triste li e reli Fernando Pessoa e não me senti só.

Num dia assim triste uma criança correu e abraçou as minhas pernas, cutucou minha esperança, me confundiu com alguém querido e me fez ligar para alguém que eu amava.

Num dia cinza eu me senti vivo e quis virar lápis de cor. 

Num dia oco eu procurei motivos novos e antigos pra me preencher de novo e foi até divertido.

 Num dia assim-assim trouxe um cachorrinho prá casa, que virou meu maior menor companheiro. 

Num dia tristíssimo procurei por você e sua voz me encheu de sorrisos o resto do dia. 

No dia mais triste do mundo eu perdi um amigo. No dia seguinte, ainda triste, agradeci por ter tido um dia um amigo que me valesse tanto. 

Num dia infinitamente triste eu cantei, minha voz era a voz da tristeza que percorria o meu corpo.  E fiz um monte de gente feliz. 

E também para que não percamos o poder de ação, precisamos olhar para a tristeza, precisamos nos indignar com ela, precisamos desejar a alegria genuinamente.
Com essa mania de corrigir tudo no computador, acabamos facilitando nossa fragilidade diante de tudo.Ortografias, fotos, cores, sorrisos, a vida vai virando um show de Trumman de verdade!

Você ouve uma voz, mas não tem certeza se foi corrigida ou não, vê uma foto, mas não sabe se há silicone, injeções ou Photoshop, lê um texto e a autoria fica vagando pelos sites. 

Um olhar positivo sobre a vida é sempre fundamental, mas, neste mundo em que vivemos, ter como exigência o riso é quase uma falta de respeito... Ou de consciência. Sei lá, vejo as pessoas querendo morrer de rir, muitas só vão ao teatro só se for comédia, e isso me assusta um pouco. 

Se não entrarmos em contato com as consistências das coisas e suas eventuais tristezas, como podemos acreditar na alegria quando ela vem?

Zélia Duncan

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O PAÍS DA HIPOCRISIA



O PAÍS DA HIPOCRISIA

Existe um país onde o que reina é a hipocrisia. É o País da Hipocrisia.
Qualquer semelhança entre sua amada pátria e este exótico país
é pura coincidência caro leitor ou cara leitora.
O país do qual vou falar é único no mundo.

No País da Hipocrisia, líderes religioso criticam a tudo e a todos
Que não seguem a chamada Palavra Divina
Mas eles mesmos cometem atos até piores do que os que eles criticam.

No País da Hipocrisia, traficante de drogas vai preso,
O usuário de drogas é torturado
Mas empresários e políticos que sustentam esse negócio
Estão livres, leves e ricos.

No País da Hipocrisia, não se pode consumir bebida alcoólica nos estádios de futebol
Mas o torcedor pode se matar de beber do lado de fora
Para depois entrar no estádio

No País da Hipocrisia, não se pode beber e dirigir
Mas legislar e governar embriagado e até drogado
Não tem restrição alguma

No país da hipocrisia, policiais
Os responsáveis pelo cumprimento da lei
São os primeiros a transgredi-la

No País da Hipocrisia, o povo reclama, reclama, reclama,
Mas, além de não fazer nada para mudar,
Vota nos mesmos políticos corruptos de sempre

No País da Hipocrisia, políticos dizem que a Educação e Saúde são prioridades,
Mas profissionais das duas áreas estão sempre em segundo plano

Sei que vocês meus caros leitores e minhas caras leitoras
Devem estar pasmos agora em saber
Que tais coisas acontecem ainda em pleno século XXI

Esse País da Hipocrisia é uma verdadeira Ilha da Fantasia do Mundo Bizarro
Devemos levantar as mãos para o céu por viver no Brasil
Se vivesse em um país como o País da Hipocrisia,
Já teria me matado
Desculpem-me, na verdade
Não teria coragem
Estou sendo hipócrita.

Nilvio P. Pinheiro
 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

PARADA DO VELHO NOVO (Texto de Bertolt Brecht)

PARADA DO VELHO NOVO

  
Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo.
Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado.
A pedra passou rolando como a mais nova invenção, e os gritos dos gorilas batendo no peito deveriam ser as novas composições.
Em toda parte viam-se túmulos abertos vazios, enquanto o Novo movia-se em direção à capital.
E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via pessoas que não gritavam.
Assim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.
O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos; estes permitiam ver o vigor de seus membros.
E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.

Bertolt Brech

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Batman, Bane e a falsa esperança do capitalismo




Batman, Bane e a falsa esperança do capitalismo
                Saí do cinema depois de assistir a “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, último filme da trilogia de Batman do diretor inglês Cristopher Nolan, com a sensação de alma lavada. Isso se deve ao fato de eu ser um ex-amante de quadrinhos de super-heróis como Batman (embora o meu preferido fosse um certo aracnídeo) e ver que é possível ter um filme do gênero que alie diversão, respeito à história do personagem e ainda conteúdo para alguma reflexão.
                Nolan já tinha feito um filme de qualidade indiscutível, sucesso de público e crítica, com o segundo da trilogia e agora, com o terceiro (que não chega a ser melhor do que o anterior), ele fecha com chave de ouro a sua série de três filmes do herói de Gotham City. Ele alia elementos comerciais e autorais e entrega um filme de super-herói com conteúdo, um filme que também faz pensar, provando que é possível fazer um cinema comercial de qualidade.
                Logo de cara percebemos que o diretor corrigiu um erro grotesco do equivocado filme de Joel Shumacher, “Batman e Robin”. O mau aproveitamento de um vilão importante na história de Batman, Bane. No (péssimo) longa de 1997, o vilão surge como um capanga imbecil interpretado por Arnold Shwarzenegger. Já no atual filme de Nolan, Bane, interpretado por Tom Hardy, surge mais próximo de sua história nos quadrinhos; um vilão inteligente, poderoso e temido. Outros personagens também são muito bem aproveitados, como a Mulher Gato, bem interpretada por Anne Hathaway. Além de referências a outros personagens como o Robin.Tudo bem feito e encaixado no roteiro.
                A exemplo do filme anterior, “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, este terceiro longa traz algumas reflexões interessantes. Em um determinado momento do filme, após derrotar Batman em uma luta corporal, Bane relata para o herói como ele irá castigar a população de Gotham City. Para isso ele diz que lhes dará esperança, ou melhor, uma falsa esperança, um falso sentimento de liberdade, para depois acabar com toda a cidade. Bane age como o sistema que controla o mundo atual faz muito bem. Dá falsas esperanças para o povo, falsos sentimentos de liberdade, para usar e abusar dele. Bane faz uso, inteligentemente, de uma estratégia que o sistema capitalista lança mão de forma bastante eficaz. Ilude para castigar, para tirar proveito, sem que se perceba.
                Só na ficção temos um milionário abnegado com Bruce Wayne, que abre mão de sua vida, de sua luz, para tirar os outros menos favorecidos das trevas. Enquanto homens a serviço do sistema que usa estratégia semelhante à de Bane,temos aos montes do lado de cá da tela. Desde mega empresários tidos como grandes empreendedores que na verdade enriqueceram às custas do suor e do dinheiro alheios, até apresentadores de televisão bonzinhos que se sensibilizam facilmente com o problemas das pessoas que são utilizadas como fetiches em seus programas, passando pelos políticos corruptos e donos de igrejas que lavam dinheiro sujo na televisão.
                Dizem que Batman é um dos heróis mais realistas por não ter super poderes, mas na verdade um empresário milionário que se sacrifica pelo coletivo é tão irreal quanto um Hulk. Na vida real, homens com a filosofia de Bane são muito mais comuns.

Nilvio P. Pinheiro

domingo, 22 de julho de 2012

As letras das músicas-crônicas-contos da prosa musical de Rodrigo Amarante


As letras das músicas-crônicas-contos da prosa musical de Rodrigo Amarante
            Os dois últimos livros de Chico Buarque de Holanda,”Budapeste” e “Leite Derramado”, parecem consolidar a carreira de escritor do já consagrado cantor e compositor. Chico que já enfrentou muitas críticas e desconfianças no campo literário, na verdade, já traz a veia de romancista nas letras de suas canções. Nelas podemos ver notoriamente uma literariedade, uma prosa poética, a construção de personagens fascinantes como Geni, por exemplo. Algo semelhante podemos ver nas letras das músicas de Rodrigo Amarante, compositor e vocalista dos Los Hermanos.
            É claro que não é minha intenção apontar um romancista embrionário em Amarante, mas sim destacar uma característica interessante de suas letras. Suas canções parecem ter uma certa roupagem de prosa, como uma crônica. É o caso de “Último Romance” presente no álbum “Ventura”. A letra fala de um casal possivelmente de idade bem madura que inicia um romance, daí o título, por ser talvez o último. A construção do personagem responsável pelo “eu poético” por trás letra, nos sugere um sujeito que o tempo e talvez até possíveis relacionamentos fracassados o deixaram sisudo, a tal ponto de o descobrimento de um novo amor mudar seu comportamento a ponto de até quem o vir “lendo o jornal na fila do pão” saberá que ele a encontrou. E este possível “Último Romance” traz as complicações e os “clichês” inerentes a esta situação. Tudo retratado na letra da canção de forma bastante sugestiva e poética.
            Outra canção que traz um certo perfil de narração e ainda mais sugestiva é “Do Sétimo Andar”, onde o eu lírico-narrador fala de uma pessoa que ele teve de deixar em um lugar que pode ser interpretado como uma espécie clínica de recuperação como podemos ver no trecho “E foi difícil ter que te levar àquele lugar...Como é que hoje se diz? ...você não quis ficar. Os poucos que viram você aqui disseram que mal você não faz.”
            Na mesma linha temos “A Flor”, do segundo álbum, que traz o eu poético-narrador contando ter dado uma flor a uma pessoa que “não sei por que achou ser de um outro rapaz”. E, no fim da canção, surge essa pessoa como interlocutora dizendo que a tal flor “deu alguém pra amar”. Esse diálogo reforça o ar de prosa dentro da música.
            E ainda temos a divertida “Paquetá”, do último trabalho da banda “4”, que traz um eu lírico cansado de sucessivas negativas diante de possíveis tentativas de reatar um relacionamento amoroso que ele mesmo contribuiu para que terminasse (“do amor amuleto o que eu fiz? deixei por aí...”) e pedindo por um “quem sabe um talvez ou um sim eu mereça enfim.”
            Todas essas letras trazem um, aos meus humildes olhos, verniz de crônica ou até mesmo um conto literário. Assim como em crônicas, suas canções trazem histórias carregadas do cotidiano como em “Deixa o Verão”, sempre de forma inteligente e sugestiva, apostando na perspicácia de seu público ouvinte, ou, por que não, leitor.

Nilvio P. Pinheiro

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O realismo cru, agressivo e poético de Cláudio Assis



                É fato que o brasileiro ainda carrega um certo preconceito quanto ao cinema nacional. Mesmo com a considerável melhora de nossas produções, ainda vemos o público torcer o nariz para a maior parte da nossa produção. Um estigma que muitas vezes nossos filmes carregam é o de ter palavrões e nudez em demasia de forma injustificada. Algo incoerente com o momento do cinema brasileiro atual por se remeter a uma época onde nossos roteiros não eram de grande qualidade.
                Um espectador com um olhar pouco atento pode incorrer no erro de querer jogar o mesmo estigma sobre o excelente e premiado filme de Cláudio Assis, Febre do Rato. O longa que é o fechamento de uma trilogia que se iniciou com o visceral Amarelo Manga, e teve sequência com Baixio das Bestas, tem palavrões e nudez sem economia, mas de forma alguma esses elementos são gratuitos. Primeiro por serem coerentes com a trilogia do diretor nordestino. Assim como em seus dois filmes predecessores, no terceiro o diretor abusa do seu estilo de incomodar, de desagradar, ou até mesmo (no caso de pessoas mais sensíveis) agredir. Parece pouco provável que alguém assista Febre do Rato e saia indiferente ao que viu. Ou embarca na viagem e no estilo contundente do diretor ou sairá bastante insatisfeito (ou até mesmo antes do filme acabar, fato que observei quando assisti).
                Na verdade, antes de agredir ou desagradar o público, a intenção de Cláudio Assis é impactar e gerar uma reflexão. Afinal de contas, por que a arte, o belo, não podem também repousar no bizarro, no grotesco?
                Outro elemento do filme que também faz uso dos palavrões e da nudez é a poesia que o filme carrega. O filme é bastante poético, mas novamente retornamos à reflexão que pode ser gerada por meio do filme. A poesia só está no belo tradicionalmente padronizado? O filme nos mostra que não. Que a poesia pode sair dos cenários pobres e cotidianos de Recife. Pode sair da ebulição sexual que o filme mostra. A poesia salta da vociferação libertária e anárquica do poeta Zizo, personagem interpretado de forma magistral por Irandhir Santos. É desse personagem que temos não só um discurso poético como um discurso social contra a desigualdade, outra marca da filmografia do cineasta nordestino.
                Esse ar poético também se deve a uma notória influência do movimento Mangue Beat. Tanto na trilha sonora como nos versos proferidos por Zizo pode-se notar a marca do movimento contracultural pernambucano que teve como um dos expoentes o cantor Chico Science . É de um dos versos desse brilhante e finado cantor pernambucano que temos o que muito bem poderia ser um dos lemas de Febre do Rato: "Que eu desorganizando posso me organizar".

 Nilvio P. Pinheiro

sábado, 23 de junho de 2012

IMPEACHMENT PARAGUAIO


Tão autêntico quanto uma muamba comprada nos territórios além da Ponte da Amizade foi o impeachment de Fernando Lugo decidido no dia 22.

O então presidente não teve sequer 24 horas para se defender das ridículas acusações que pesavam contra ele e motivavam supostamente o seu processo de destituição. Não sei como trabalha a justiça paraguaia, mas duvido que julguem um suspeito de forma mais rápida do que o parlamento golpista julgou o processo de impeachment de Lugo. Também não sei o que diz a constituição do Paraguai, mas me parece óbvio que destituir um presidente em pouco mais de 24 horas é algo absurdo. Pensem! Um presidente foi retirado, destituído, impeachmentimado do cargo em pouco mais de 24 horas.

Não tem outra definição. O nome disso é Golpe de Estado!

E não para por aí. Piora, e fica clara a má intenção do parlamento paraguaio, se lembrarmos que tudo isso aconteceu em meio ao Rio + 20, quando todas as atenções estavam direcionadas para a conferência no Rio de Janeiro. Foram oportunistas. 

Os algozes de Lugo alegam um monte de baboseiras, mas não apresentaram nenhuma acusação concreta. A verdade é que Fernando Lugo, eleito democraticamente pelo povo paraguaio (povo este que protesta em sua defesa), estava voltando suas atenções para a questão da reforma agrária no Paraguai. Fato este que incomodou muita gente por lá. Incomodou a ponto de aplicarem um golpe de estado.

É inadmissível que o governo brasileiro, de quem o mundo espera um posição de liderança dentro da política Sulamericana, tenha uma posição diferente da de não reconhecer esse governo golpista e antidemocrático que ora se encontra no país vizinho. É inaceitável também que, diante da posição antidemocrática do parlamento paraguaio e do que se prega o Protocolo de Ushuaia (que rege o compromisso democrático no Mercosul), os países que compõem o Mercosul não decidam pela suspensão do Paraguai da participação do bloco.

A fama do Paraguai é de comercializar produtos falsos, mas nesse momento o que há de mais falso é o seu governo. Uma verdadeira democracia paraguaia.

Nilvio Pinheiro

sábado, 16 de junho de 2012

Eu, Zé, O Declamador, Brecht e a Cúpula dos Povos

Estava eu andando pela Cúpula dos Povos (evento que se diz alternativo à Conferência Rio + 20, que é uma pseudoconferência de chefes de estado sobre uma pseudosustentabilidade) na ilustre companhia de meu amigo Zé (ilustre e inteligente companhia, diga-se de passagem) quando nos deparamos com um declamador de poemas. Já tinha visto vários elementos que encontrara ali na cúpula: índios, gringos, burgueses de merda, mas um cara que cobra um real para declamar poemas nunca tinha visto.

A curiosidade nos fez aproximar do declamador. Resolvi então pagar a quantia que, convenhamos, era ridícula perante poemas de Drummond, Quintana, Pessoa e outros. Optei pelo poema do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, pelos ideais que a Cúpula representava ou pelo menos deveria representar. Paguei o valor ao declamador e eu e Zé, que também era a favor de ouvir o poema de Brecht, nos preparamos para ouvir a declamação.

Na verdade foram duas declamações. Primeiro o declamador iniciou com um trecho de um longo poema do darmaturgo alemão cujo título me foge à memória. E veio, em seguida, com a leitura de um poema que julgo ser muitíssimo conhecido, mas não é por isso que deva ser menos valorizado. Tanto que decidi reproduzir aqui o poema e a declamação do nosso simpático e anônimo artista (o nome dele até estava no cartaz, porém não recordo nem da primeira, tampouco da última letra, passando pelas do meio também).
O Vídeo (perdoem-me, mas terão que assisti-lo de lado porque não tenho a mínima ideia de como se gira esse arquivo, mas deixe estar):

O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Namoro, de Viriato da Cruz (poeta angolano)

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do loge
seus dentes... - marfim...
          Mandei-lhe aessa carta
          e ela dise não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho topografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro - NÃO
          E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
          E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que seu pé deixou
para que fizesse um feitiço sexo e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
          E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
peguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do Largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu... (ai, não viu...?) não viu Benjamin?"
E perdido me deram no morro do Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu casoàs moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Ai Benjamin!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.

Viriato da Cruz

sábado, 9 de junho de 2012

O país das calças beges, de Ferrez


2/17/2010


O país das calças beges
O céu azul é lindo
Mas no xis te deprime (Detentos do rap)
O sol é pá e tchum, parece que vai queimar minha retina.
Faz tempo que não faço aquele ato pau no gato.
Dei o saco com a camisa, escova de dente, par de chinelos e o velho short pra um parceiro que sempre teve menos que isso.
Na rua é tanta pagação e na prisão agente aprende em primeiro lugar a humildade.
Tem que dividir pra dormir, pra usar o banheiro, pra comer, pra saber sair na hora certa e ficar na hora que também estiver no pá.
Não vou querer nenhuma lembrança desse passado recente, agora tenho á minha frente mais futuro, pelo menos assim espero, acho que já sai definitivamente da prisão e to longe do cemitério.
Tenho liberdade para ir aonde quiser, agora finalmente a tenho.
To com o pensamento na milisquência da sequência do ato antiviolência, num vou mais seguir para matar.
Na primeira noite fui humilhado, dormi no boi, mas o cara que fez a brincadeira, nunca mais vai fazer com ninguém, tirar sarro da cara de ladrão não tem perdão.
Entrei por causa de um assalto e me formei em homicídio, isso que é faculdade.
Vários buchichos durante o dia, várias mulas durante a noite, neguinho perde a linha rapidinho na brincadeira de cadeia, ai é só lamento, agente cobre na manta e dá um pau geral, pra aprender a entender as risada do parceiro.
Agora é outra fita, outra vida. Daqui pra frente é só progresso.
Não tenho o dinheiro da condução e resolvo pedir uma carona.
Talvez pelo rosto desgastado pelo tempo de cela, talvez pelas roupas velhas, encardidas, o motorista não se comove e me chama de vagabundo.
Vagabundo não, eu to no pá de correr pelo certo, mas também num vou aguentar tiração de ninguém, muito menos de Zé povinho que puxa saco de dono de empresa, faz seguinte enfia esse buzão no seu rabo, vou na caminhada pra num dar uma de louco logo agora.
Foi um julgamento quase tão rápido como todos são, um juiz que ria da minha cara, ria como se soubesse como é o mundão lá fora, longe de ajuda de pai, longe de facilidade pra estudar.
Num guento mais andar, pego o próximo buzão, deixo passar mais uns três pontos e então peço para passar por baixo.
O cobrador emenda um palavrão.
Eu, um ex 157 abaixo a cabeça e fico com a vergonha e com a liberdade.
Tudo está mudado, as coisas mudaram muito, não conheço as ruas, não conheço as lojas, nem os novos modelos de carros, os panos e as cores dos bagulhos também tão a milhão, e até o jeito das pessoas mudou, ninguém nem olha mais na bolinha do olho do outro.
As músicas... o que é mais estranho são as música, bagulho louco.
Estou pálido, branquelo mesmo de tanto não ver o sol, tiro a camisa para pegar um pouco, muitos que passam pela calçada me olham, talvez seja a pele quase verde, talvez as tatuagens adquiridas com os anos de ósseo, talvez a cara de monstro que não dá pra esconder.
Tenho que vê-la, tenho que chegar em casa e ver minha pequena, faz tanto tempo que parou de me visitar, talvez tenha ficado doente, talvez voltado a estudar, sei que foi difícil de uns anos pra cá.
Mas to ligado que ela me ama, coração de vagabundo bate na sola do pé, e dá pra sentir a quando o bagulho é de verdade.
Telefone não atende mais, talvez tenham cortado, sei que ela batalha muito para manter a casa, eu sei tudo isso, mas tenho um nó na garganta, uma saudade doída, e to a fim de perdoar ela, ficar visitado cadeeiro é barra, os pé de urso examina, humilha os familiá.
Chego em casa, finalmente, parece que foi ontem que sai daqui, pouco mudou na favela, até os barraco num melhorou nada, a porta do meu barraco me dá uma vontade de nunca mais sair dele, aquela saudade do café com leite, pão esquentado no final da tarde, jogo da seleção, uma cerva com os parceiro, e o no quintalzinho dos fundos um churrasco pra galera, comemorar minha saída, minha liberdade.
Na viela alguns abraços, saudades, demonstrações de surpresa, ninguém imaginava que eu ia voltar. Que um dia eu iria voltar para lá, confesso que percebi que teve gente que até se espantou, tipo me esqueceu, falou que tava surpreso, mas na verdade tava com vergonha de nem se lembrar de mim, tudo bem, todo mundo ta no seu corre, ninguém deve ter tempo de lembrar assim de correria.
Gente que pensou que morri, gente que pensou que fugi e sai por ai nesse mundão.
Dentro de alguns dias serei um incomodo, serei um a mais, um cara que serra cigarro, que pede um copo de pinga, que vai na casa do parceiro que está melhor e pede uma pistola pra fazer um trampo.
Dentro de alguns dias eu vou ser a porta fechada na cara, a campanhia não atendida, a conversa não continuada, o sussurro – ta vendo esse ai? É um bosta, um nada.
Bato no barraco, não tenho chave, não tenho como entrar, bato e bato com mais força, uma vizinha sai e pergunta o que estou procurando.
Digo que minha esposa, a vizinha abaixa a cabeça e fala baixinho que ninguém mora mais ali, que o barraco ta pra vender.
Não acredito e quero ouvir toda a história, ela não sabe explicar, diz que a mulher saiu com um menino e com um taxista, eu to com um nó na garganta, to respirando alto, suando, ela diz que a mulher estava a algum tempo namorando, que ela um dia chegou pegou as poucas coisas, deixou a venda do barraco sobre sua responsabilidade e se foi junto com um homem.
Num deixou telefone, nem nada?
Nada! Liga de vez em quando pra ver se vendi o barraco, deixou só um número da conta pra depositar o dinheiro do barraco, me prometeu uma parte se eu vendesse.
Abaixo a cabeça, ela agora pesa uma tonelada. Minha casa caiu, meu mundo acabou. O que vou fazer nessa longa estranha caminhada.
Ando pelas vielas, pelas ruas principais, e não acho nenhuma alfaiataria, foi o que aprendi na cadeia, ser um alfaiate, logo eu né? Que nunca me consertei na vida.
Eu sou um homem livre, mas sem dinheiro no bolso isso não importa muito eu sei.
O apresentador berra que somos animais, não sabem que em muitas cadeias desse país, os animais como eu doam um dia de sua comida por semana pras pessoas que precisam, os famíliá vai lá buscar, quem desses aí que vive falando doa um dia da semana de comida pra alguém.
Eu vejo que esses apresenta-a-dor de merda todos pedem pra prender as crianças, antes de eu ir pra cadeia, quando uma criança colava agente ria, falava com ela, agora quando vem chegando uma criança, parece que ela vai pedir algo, agora eu vejo as pessoas com medo, segurando a bolsa, eu não sou mais vilão, eu não causo mais pavor do que um menino de 12.
Eu to ficando chapado, to com fome, mas reflito. As crianças não sorriem mais na rua, eu prevejo mais gente portando pistola, colete, carro blindado, cada um correndo pelo seu.
Vejo um cara empurrando um cara sozinho, ninguém ajuda, ninguém cola, eu num to entendendo nada.
Tudo mudou, tudo ta mudado, as coisas envelheceram, perderam a beleza, as pessoas ficaram frias, olhos para baixo, cabeças para o chão, um dia eu ouvi alguém dizer um bom dia para um jornaleiro, quase chorei.
Eu to com fome, tento ligar de novo, o telefone não atende, vou dar um role no centro, acabei de encontrar um parceiro, ele disse que não tem como somar comigo, disse que ta cheio de gente dando multa, na minha época ajudar os outros não era multa, aqui na quebrada eu não arrumo nada, não posso mexer em nada, se não vou ser cobrado, tem lei por aqui agora, é o que me disseram.
Eu to livre, eu tenho minha liberdade, vou chegar no centro, talvez eu a perca.
Eu fiquei preso, pode crê, talvez eu volte para lá, porque aqui fora num tem ninguém solto mesmo.
Ferréz
É datilógrafo e está preso em regime semi aberto na periferia de São Paulo há 33 anos.